21 de abril, 2019

Agente da Transformação Social e Difusor do Conhecimento Científico

Médicos e Literatura

A exposição sobre a vida e a obra de Gilberto Freyre na Estação da Luz, no mesmo espaço em que se encontra outra mostra de grande interesse sobre a Língua Portuguesa, enseja a oportunidade de discutirmos a relação entre Medicina e Literatura. É que na imensa obra do escritor pernambucano, autor de mais de 80 livros, há um trabalho muito especial sobre “Médicos, Doentes e Contextos Sociais”, publicado pela Editora Globo em 1983, mas ainda hoje de grande valia para quem estuda o assunto.

A edição italiana foi considerada pela crítica européia como “obra pioneira, em língua neolatina, a abordar sistematicamente o assunto complexo que é, do ponto de vista sociológico, o relacionamento médico-doente”, segundo se lê no prefácio de 28 páginas, escrito pelo próprio Gilberto em 1980.

Pouco antes de morrer, o escritor esteve internado alguns dias no Instituto do Coração, da Faculdade de Medicina da USP, onde eu era assessor de imprensa. Apesar da curiosidade natural, pela importância da personalidade internada e pelo fato de ser também do mesmo Estado, não pude especular sobre seu estado de saúde, já que havia determinação familiar em torno do seu caráter sigiloso. No fundo, o escritor tivera uma vida saudável e enfrentava as questões habituais concernentes à idade. Ponto final. Tanto é que só morreria anos depois no Recife, quando os médicos e a família se convenceram da inutilidade de buscar recursos em outros Estados.

A cidade do Recife já era um pólo médico de grande importância, não se recomendando essa busca desesperada em torno de avanços científicos.

O que chamava a atenção era a extraordinária capacidade do escritor, cuja obra é reconhecida no Brasil e fora dele. Gilberto Freyre, como se sabe, foi muito jovem para os Estados Unidos, mas em vez de ganhar dinheiro, como o fazem de hábito os emigrantes, aprofundou-se no estudo da sociologia, sendo depois professor das próprias universidades por onde passou como estudante.

Sua obra mais conhecida é “Casa Grande & Senzala”, considerada a mais completa descrição da sociedade brasileira, suas origens e formação. Por que o escritor resolveu estudar a sociologia da Medicina? Talvez porque soubesse da preocupação do médico pelo sofrimento da população, sem acesso a tratamento médico, o que levou muitos profissionais de Medicina a aderir ao socialismo.

“Nada impede – é claro – o médico de ser socialista. O que deve ficar claro é que a Sociologia da Medicina não é, como tal, uma sociologia subordinada ao ideal e à doutrina socialista” – diz o escritor às páginas 151 do referido livro.

O que mais impressiona no trabalho do sociólogo é a densidade de suas observações, sempre balizadas em respeitáveis opiniões nacionais e internacionais. Em “Médicos, Doentes e Contextos Sociais” temos um escritor e sociólogo falando de Medicina.

De leitura mais amena, temos também os médicos que por alguma razão tornaram-se escritores, como é o caso de Ryoki Inoue, Moacyr Scliar, Pedro Nava, Roland Paraíso e dezenas de outros conhecidos ou não. O Brasil está cheio deles.

O caso de Ryoki é no mínimo curioso. Já exercia a profissão normalmente, no pronto socorro do Hospital das Clínicas de São Paulo, quando resolveu dedicar-se a escrever as mais variadas histórias. Abandonou a profissão e transformou-se no único escritor brasileiro a figurar no Livro dos Recordes, como autor de mais de 1.000 livros. Não é muito conhecido nos meios intelectuais. Alguns críticos torcem o nariz para suas obras, como o fazem também com relação a Paulo Coelho.

Mas Paulo Coelho é o autor brasileiro mais conhecido no exterior e Ryoki Inoue é o único brasileiro a exibir, com orgulho, sua performance de rápido no gatilho. É mais rápido que Aguinaldo Silva, que produz uma montanha de textos por dia para as novelas da Globo.

A propósito da produtividade literária lembro o mico que paguei ao mostrar um conto ao amigo Osman Lins. Ele perguntou em quanto tempo eu havia escrito o tal conto, de cinco laudas. Respondi prontamente: num fim de expediente, entre cinco e seis da tarde. Não querendo ser grosseiro, o escritor, já com um câncer no cérebro, apenas me contou que levava um dia inteiro para escrever uma lauda.


Fonte: Blog do Tiné

CC BY 4.0 Médicos e Literatura by Flávio Tiné is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Sobre o Autor

Flávio Tiné

Jornalista profissional desde 1962, quando começou na Última Hora, Recife. Seu último emprego foi como assessor de imprensa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, onde ficou 21 anos. Antes, trabalhou em duas outras assessorias de imprensa: Siemens e Unibanco. Já havia passado por diferentes experiências como repórter e redator na Editora Abril, O Estado de S. Paulo, Diário do Grande ABC, A Gazeta e Diário do Comércio e Indústria. Escreveu três livros: "Pois não, Doutor". sobre o HC; "Viver Tem Remédio", crônicas, e "As Boas Lembranças da Luta", em que repassa acontecimentos ligados a efêmeras atividades políticas. Foi casado durante 10 anos, tem dois filhos e seis netos.

OUTRAS PUBLICAÇÕES

Este site possui segurança certificada SiteLock

SiteLock