26 de junho, 2019

Agente da Transformação Social e Difusor do Conhecimento Científico

Objeto não identificado

Objeto não identificado

pipa-leva-meninoEste é um roteiro de curta-metragem em animação.

Uma boa ideia pode mudar a face do mundo, ou pelo menos, nos garantir a sobrevivência. As ideias valem dinheiro; se somos pessoas que vivem das ideias, não há injustiça no fato de nos fazermos pagar por elas. Claro que às vezes damos uma ideia e não cobramos nada por ela, mas nestes casos, trata-se de um “presente”. (Doc Comparato, 1984)

 

STORYLINE

Um menino de família humilde não se conforma com a ausência de respostas para as suas dúvidas. Buscando descobrir mais a respeito do universo, João descobre uma maneira de sozinho chegar às estrelas.

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menino-lendoPERFIL DO PERSONAGEM

O personagem é uma animação projetada pela imaginação do autor. Portanto, suas características principais serão aprimoradas com recursos gráficos digitais.

Filho de um cobrador de ônibus e de uma auxiliar de limpeza, João é um menino sem muitos recursos. Com 10 anos de idade, o menino já apresenta um certo raquitismo que evidentemente está associado à sua má educação alimentar, sem levar em consideração o fato de que nem sempre há um prato de comida na sua casa.

Apesar de pesar pouco mais de 20 quilos, João é uma criança bonita, de pele bem morena, puxando mais para a cor negra. Seus olhos e lábios grandes que herdou do pai, combinam igualmente com o nariz fino da mãe, assim como os mesmos cabelos: lisos, escuros e brilhantes.

Dessa maneira, a característica principal do personagem, quanto ao seu aspecto físico, será o corpo fino, ou simplesmente magro e longilíneo. Talvez, por essa razão que na estação de inverno, sinta mais frio que as outras pessoas. Até mesmo as tias e carolas obesas que costumam ocupar a casa e pregar a palavra de Deus toda a semana, não sentem mais frio que ele.

Sob essas repetitivas circunstâncias, João que acumulou pilhas de outros livros, ler a Bíblia passou a ser uma obrigação imposta de forma tão radical por sua família, que dentre as coisas que ele passou a não gostar é sobre a leitura e celebração religiosa.

Morando com seus pais em uma comunidade carente na periferia de São Paulo, João não tem muitas escolhas e tampouco atividades sadias para fazer no bairro, onde a maior parte das crianças ficam na rua, misturados com outros pequenos indelinquentes da sociedade que, ora estão ali jogando bola como meninos, ora estão nos becos traficando drogas e armas como bandidos-mirins.

Em seu último aniversário em casa, para tentar fugir daquela cantoria, onde só conseguia enxergar sapatos e saias cumpridas que chicoteavam os bordados em seu rosto como se fossem rabo de tatu, João consolidou os traumas que vinha desenvolvendo. Fato que se deu após uma fuga para a rua, porém, repleta de outros meninos a sua espera para “batizá-lo”. Resultado, João ganhou de presente um braço quebrado e hematomas por todo o corpo. E ainda, como se não bastassem os golpes desferidos contra ele, o tamanho e a forma como ele recebeu uma injeção no pré-operatório estabeleceu um horror velado à agulhas.

Apesar disso tudo, sua principal motivação é a curiosidade pelo saber. O desconhecido fascina o menino. Por outro lado, João teme que as pessoas não consigam entendê-lo, já que ele é o único que está sempre perguntando as coisas e anotando no seu caderninho as respostas que o satisfaz.

No frigir dos ovos, para João, o que mais importa é poder passear com o pai, uma vez que este tem pouco tempo com o filho.

soltando-pipaSINOPSE

Na região da periferia de São Paulo, acessibilidade e educação são direitos quase esquecidos pelo Estado. Mesmo assim, sempre há alguém disposto a enfrentar ou, no mínimo, questionar o que está faltando e o que está errado.

Diante desse fato que nasce o nosso protagonista. João é como toda a criança de 10 anos, gosta de brincar de atividades comuns como soltar pipa e nos fins de semana, seu maior desejo é ir com o pai no parque Ibirapuera.

Em uma dessas ocasiões o pai o levou no Planetário, onde o menino teve seu primeiro contato significativo com a ideia de outras galáxias e teorias de outras dimensões além da terra.

Na escola seus amigos só diziam palavrão e faziam brincadeiras sem graça. Quando um dia comum de aula, a professora perguntou sobre o Sol e João levantou a mão impressionando a todos sua resposta correta, alguns meninos aproveitaram um momento de distração no intervalo e roubaram o seu lanche. O único alimento que ele teria durante a maior parte do dia. Resultado, a pressão de João baixou e ele desmaiou no pátio da escola.

Horas depois, considerando que o resgate demorou para levá-lo no Pronto-Socorro, os pais preocupados tentavam entender o que tinha acontecido.

Já de molho, em casa, João não conseguia pensar em outra coisa a não ser buscar saber o que tem além das estrelas que ele via no céu. Por causa disso, o menino que já não comia direito, ficou doente e teve que voltar ao atendimento público, desta vez, no posto de saúde, local onde a mãe costumava ir mesmo quando pegava  uma simples gripe. Quando a mãe trouxe o resultado do exame, uma triste notícia chegava precocemente ao João: Ele estaria com leucemia avançada e ninguém sabia, até então.

Sonhando com a possibilidade de um dia encontrar algum sinal de vida extraterrestre, o menino resolve enviar uma mensagem para fora da órbita da terra com a ajuda de uma pipa.  Só que para isso, ele precisaria recuperar linhas que foram deixadas de lado por outros meninos com o objetivo de e aumentar seu carretel com diversas emendas.

Este processo demora dias, semanas até completar um mês. Tempo suficiente para ele conseguir juntar milhares de metros de linha.

João volta à escola e novamente sofre com as maldades dos meninos que, desta vez, não pegaram o seu lanche, mas o trancaram no banheiro durante todo o intervalo. Nervoso e sob forte tensão, João não resistiu e novamente perdeu a consciência que só foi recuperar já na sala dos professores com o corpo e roupas completamente sujos. João não queria mais voltar para aquela escola. Nunca mais!

Assim, quando voltou em casa, João retomou seu projeto e depois de conseguir soltar a pipa no alto, em sua cabeça acreditava que ela teria chegado fora da Terra. João queria ir mais longe.

Carregado de esperança, e depois de muito pesquisar nos livros de escoteiro mirim e enciclopédias como Tesouro da Juventude, o menino escreve um texto com códigos numéricos, na esperança de que alguma vida inteligente pudesse interpretá-los.

Usando a técnica descrita nos livros, em que dobrando a carta dentro de um papel um pouco mais duro e ateando fogo nele sobre a linha, ele cria um rastro de luz causada pelas pequenas chamas, que cruzam o céu.

Sua felicidade é completa quando, no dia seguinte, emissoras de TV e diversos jornalistas buscam saber o que aconteceu naquela noite, depois de que vários relatos de moradores, disseram ter visto um objeto não identificado no céu.

Isso, evidentemente, deixa as pessoas assustadas e João é proibido pelos pais de soltar pipa até mais tarde e ainda, ficaria de castigo se tocasse no assunto sobre o universo. Afinal, naquela casa, só era permitido falar de Deus.

Algumas semanas depois, sem qualquer comprovação, a história esfria, mas João não esquece do seu objetivo e decide fazer um papagaio gigante com linha de barbante.

Ao terminar sua obra, João esperou o melhor momento soltou o papagaio que foi no alto e quando estava quase sumindo, uma rajada puxou a pipa com tanta força que a linha enrolou na mão de João e simplesmente o levou para o céu.

Depois deste dia, um recado foi encontrado no quarto do menino. Tratava-se de uma carta para o prefeito pedindo mais escolas para o seu bairro e um bilhete dizendo: Mamãe, quer saber onde estou? Não deixe de perguntar. Só quem pergunta encontra a resposta.”

ESCALETA

Situação 1

MANHÃ / CÉU NUBLADO / PERIFERIA DE SÃO PAULO

Crianças jogam futebol com os pés descalços em rua esburacada em frente a um muro pichado de uma escola.

João está sentado na calçada assistindo a tudo enquanto também está com um livro de ciências sobre os joelhos.

O jogo continua com palavreados entre os dois times. No mesmo instante que toca o sinal da escola para que fosse aberto o portão, uma bola é lançada e vai em direção ao João que naquele momento está concentrado em sua leitura.  Quando a bola finalmente cai dentro de uma poça sujando-o completamente, e também o seu livro, ele ainda é xingado por um garotos que passam correndo.

Situação 2

SALA DE AULA / TURMA DA 5ª SÉRIE

Nos dias de quinta-feira, quando há macarronada com carne moída de merenda, a classe fica lotada. O cenário não poderia ser outro com bolinhas de papel vindo de todas as direções. Meninas xingando ao mesmo tempo em que outros meninos falam palavrão. E no meio está João.

De repente a professora dá um grito e começa a falar em voz baixa, vira-se, pega o giz e escreve no quadro a frase “Explique o que é o Sol e qual é a sua importância.” E embaixo, acrescenta: “Quem souber responder está liberado desta aula e ganha 10 pontos”.

Depois de alguns segundos de absoluto silêncio, João levanta a mão e responde a pergunta de forma correta. Mas, em vez de elogios o que ele recebe são novos xingamentos e acusações da turminha de garotos do “fundão”.  João ainda sai da sala com uma chuva de bolinhas de papel lançadas em sua direção.

Situação 3

ESCOLA / REFEITÓRIO / BANHEIRO

Corredores vazios e com o caminho livre, segurando o livro ainda um pouco manchado pelo barro, João segue em direção ao refeitório para aguardar a merenda, enquanto pudesse continuar com a sua leitura. Quando chega lá, lê um aviso: “Macarronada Cancelada. Dirija-se à Cantina.” Preocupado por não ter como comprar um lanche saudável e precisando se alimentar desde a noite passada, João corre até o banheiro com dor de barriga.

Lá dentro, porém, estavam três adolescentes e um dos mesmos garotos que jogaram papel nele e que deveriam ter fugido da aula. Acuado e ainda com fortes dores no estômago, João não teve forças de gritar quando um dos adolescentes o segurou por trás apertando seu peito. Suficiente para que João, muito magro e frágil, desmaiasse. Sem o menor arrependimento, os moleques e autores daquilo simplesmente correram, deixando-o caído no chão úmido, sujo e molhado.

Situação 4

INT / HOSPITAL / CORREDOR / MACA

Deitado na maca, João descansa enquanto seus pais conversam com o médico que explica ele não ter se machucado com a queda, mas mostra o resultado de um exame. A mãe chora com a notícia sem precedentes e o pai tenta consolá-la.

O médico reforça que o grau de leucemia do menino já é crônico e sem o tratamento ideal pode atingir o grau de leucemia aguda. Nestes casos, com chance de sete meses a dois anos de vida.

Situação 5

EXT / PARQUE IBIRAPUERA / SÃO PAULO

Dias depois, o pai de João o leva no Planetário, onde o menino teve seu primeiro contato significativo com a ideia de outras galáxias e teorias de outras dimensões além da terra. Sentado na poltrona inclinável, ao lado de seu pai, João pode observar as estrelas dos diferentes polos do planeta.

Situação 6

INT / QUARTO DE JOÃO / CASA / PERIFERIA

Em casa, João não faz outra coisa a não ser ler e desenhar tudo o que diz respeito sobre as estrelas e planetas do universo que ele conhece.

Sonhando com a possibilidade de existir vida extraterrestre, João tem a ideia de enviar uma mensagem pelo céu. Lendo em um dos livros do Escoteiro Mirim, João descobre como fazer.

O menino começa a pintar sua pipa amarela com a canetinha até deixar ela com a cor preta.

A noite cai e como todos as noites, várias mulheres chegam para rezar com sua mãe que o deixa ir brincar na rua.

João pega sua pipa e sai.

Situação 7

EXT / TERRENO BALDIO / PERIFERIA

Correndo um pouco e com alguns solavancos na linha, João consegue empinar sua pipa preta quase imperceptível no céu. Tirando do bolso um isqueiro e pedaço de papel, João o dobra na linha e com o isqueiro começa a queimar, fazendo-o subir pela linha, criando um rastro de luz pelo ceú, causado pelas chamas do papel.

Situação 8

INT / CASA / SALA / PERIFERIA

A experiência tinha sido um sucesso. Para João a felicidade maior foi quando, assistindo a TV, diversos jornalistas buscavam saber o que aconteceu na noite passada, em São Paulo. Repórteres e moradores diziam ter visto um objeto não identificado no céu.

Assistindo a tudo, a mãe de João ficou apavorada achando que era um sinal do apocalipse. João então pergunta para a mãe se ela nunca se perguntou se existe vida em outros planetas. Nervosa, sua mãe o ameaça ficar de castigo se perguntasse esse tipo de coisa de novo.

Situação 9

INT / CASA / QUARTO DO JOÃO / PERIFERIA

Enquanto a mãe rezava com suas amigas da igreja, em seu quarto João não para de emendar barbantes para uma nova pipa que ele tinha feito e que já era muito maior que a primeira.

Situação 10

EXT / MORRO / PERIFERIA

No dia seguinte, sua mãe já foi no grupo de oração, seu pai já foi trabalhar e ele se vê sozinho em casa. Desta vez, João resolve que em vez de ir à escola, faria outro caminho. Decidiu soltar a sua pipa gigante lá no alto do morro onde o vento era maior.

Depois de uma rajada mais forte e com o barbante enrolado no braço, João é simplesmente levado para o céu junto com a sua pipa.

Situação 11

INT / QUARTO DE JOÃO / CASA/ PERIFERIA

Dias depois, em casa, triste e abatida, a mãe vai até o quarto de seu filho e encontra um pedaço de papel embaixo do livro “Tesouro da Juventude”.

Nele, está escrito: “Senhor Prefeito, as crianças precisam de melhores escolas e mamãe,  quer saber onde estou? Não deixe de perguntar. Só quem pergunta encontra a resposta.”

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CC BY 4.0 Objeto não identificado by Georges Ryoki is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Sobre o Autor

Georges Ryoki

Jornalista, editor e publicitário, desenvolve projetos auto-sustentáveis de Jornalismo Colaborativo para diversos segmentos editoriais e diferentes nichos de mercado.

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