26 de setembro, 2017


Pulp Fiction

Pulp Fiction

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Daniel Piza (1970 – 2011) / Foto: Divulgação

Em 1995, o jornalista Daniel Piza já lamentava “Yes, nós tínhamos “pulp fiction”! Os autores brasileiros da ficção que inspirou o filme de Quentin Tarantino, “Tempo de Violência” (Pulp Fiction), são hoje uma espécie em extinção.” Em seu artigo, “Mercado de ‘pulp fiction’ agoniza no país”, Piza chamava atenção para a queda na produção editorial desses livros que ensinaram muitos dos brasileiros a gostarem de ler.

Editoras como Nova Cultural, Nova Leitura e Monterrey que, na época, ainda publicavam livros de papel vagabundo com histórias de bangue-bangue e “romances femininos”, e que eram facilmente encontrados nas bancas, passaram a editar apenas traduções.

Chama-se Pulp Fiction as obras impressas em papel jornal, que é originário da polpa da celulose. Daí ser Pulp Fiction, ou seja, obras de ficção feitas em papel barato.

Ainda, segundo Piza, entre outras razões, isso ocorria porque o mercado brasileiro de livros baratos havia sofrido grande baixa em 1992, quando o “Autor dos Mil Livros” parou de escrever para essas editoras.

Considerado como um dos mestres do gênero pelo Wall Street Journal, José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue é, segundo o International Guinness Book of Records, o escritor brasileiro que mais publicou livros até hoje.

Com mais de 1200 títulos na carreira, desde 1986, o autor chegou a dominar 95% do mercado de pocket books publicados no Brasil.  Escreveu 999 novelas em seis anos, com histórias de guerra, espionagem, faroeste, romances policiais, aventura entre outros gêneros da literatura.

Até seu milésimo livro “E agora, Presidente?”, seus editores o obrigavam a usar pseudônimos, por isso, Ryoki criou 39 deles e que o ajudaram a fortalecer os selos das coleções em todas as bancas jornal do país.

O sonho de se tornar escritor, fez com que o Dr. Ryoki, formado pela USP e especialista em Cirurgia do Tórax, deixasse a medicina. Como resultado, desenvolveu um estilo próprio de criação e que mais tarde passou a ser reconhecido pela crítica.

“O mais produtivo escritor do Brasil e do mundo tem seus trabalhos escritos com um português perfeito.” ANSA Agency

 “Ryoki alimenta sozinho mais de 400 mil leitores por mês.” Eduardo Bueno, Estadão

“A maioria das edições dos livros escritos por Ryoki alcançam mais de 10 mil exemplares. Todos eles são vendidos imediatamente.” Severino Francisco, Correio Brasiliense

“Ele produz capítulos inteiros durante suas idas ao banheiro.” Matt Moffet, Wall Street Journal

“A produção literária do incansável Ryoki Inoue levou-o não apenas ao Guinness Book como o autor mais prolífico do mundo, mas também a ser comparado a Georges Simenon por alguns críticos internacionais. Outros comparam seu estilo e sua velocidade de produção com Sidney Sheldon. Outros dizem que ele pode ser posto ao lado de Harold Robbins, principalmente pela forma como tece as tramas de seus thrillers.” Flávio Tiné, Folha

O milésimo livro marca a virada na carreira de José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue. E agora, Presidente? Um romance político-policial que aproxima esse escritor de ficção da realidade brasileira.” Paulo Pestana, Correio Brasiliense

“Junto com a imaginação e o dom de escrever, o que o torna especial é sua disciplina e determinação.” Goulart de Andrade

“A maioria das pessoas não conseguem ler na mesma velocidade que ele escreve.” Jô Soares, Jô Onze e Meia

Publicado na Folha Ilustrada, 7 de abril de 1995.

A “pulp fiction”, ou ficção barata, é um subproduto dos folhetins que a imprensa francesa publicava no século passado e início deste. O termo e o gênero surgiram nos EUA nos anos 20.
“Pulp” significa literalmente “polpa”. A palavra se refere ao papel vagabundo usado nas edições de revistas e livros naquele período da história americana.

O conteúdo de um “pulp” é variado: pode ser policial, faroeste, ficção científica, histórias eróticas, de horror, guerra ou esporte. A regra é ser de baixa qualidade.

Algo como este parágrafo de “Meu Destino É Pecar”: “Ele percebeu instantaneamente que os braços que assim o enlaçavam eram leves, finos, macios demais para serem de homens”.

Se você quer um equivalente no cinema, pense nos filmes “B” dos anos 50. Na TV, pense nos seriados como “Perdidos no Espaço” dos anos 60.

Esse tipo de ficção era publicada em revistas como a famosa “Black Mask”, dos jornalistas (e intelectuais) H.L. Mencken e G.J. Nathan, nos anos 20.

“Black Mask” revelou, por exemplo, os maiores escritores policiais dos EUA: Dashiell Hammett (autor de “O Falcão Maltês”) e Raymond Chandler (“O Sono Eterno”).

Os livros de “pulp” foram os antecessores dos “pocket books”, surgidos em 1939. Com os livros de bolso, a “pulp” passou a receber edições de mais de 200 mil exemplares e, nos anos 50, se tornaram mania, ao lado dos milkshakes e beatniks.

Yes, nós tínhamos “pulp fiction”. Os autores brasileiros da ficção que inspirou o filme de Quentin Tarantino, “Tempo de Violência” (Pulp Fiction), são hoje uma espécie em extinção.

As editoras Nova Cultural, Nova Leitura e Monterrey que ainda publicam livros de papel vagabundo e teor idem, como “westerns” e romances “femininos” (“Sabrina”, “Júlia”) que podem ser encontrados nas bancas, agora quase só editam traduções.

Entre outras razões, isso ocorre porque o mercado brasileiro de livros baratos (de R$ 1,30 a R$ 3,00) sofreu grande baixa há três anos quando José Carlos Ryoki de Aloim Inoue parou de escrever para essas editoras.

Em sua própria avaliação, Inoue escrevia 95% desses livros. O livro “Guinness” dos recordes não o deixa mentir: ali ele consta como o escritor que mais livros escreveu. Hoje está no 1.034º, “Herança Maldita”, que a editora Carthago & Forte lançou esta semana. Desde o nº 1.000, porém, Inoue não faz mais livros baratos. Escreve romances de 300 páginas, sob temas diversos (leia texto à pág. 53), e o preço é alto R$ 25, no caso de “Herança Maldita”.

Inoue concorda que os autores brasileiros de ficção barata estejam sumindo. “Esse negócio hoje é uma troca de cebola”, diz. O editor da Nova Leitura, Nildo Rodrigues Vicente, também se
mostra desanimado. “O custo da edição aumentou e as vendagens caíram”, conta. A venda de um livro hoje gira em torno de 5.000 exemplares; no final dos anos 80, ia de 8.000 a 10 mil.

Além disso, editoras como a Cedibra publicavam 1 milhão de exemplares por mês nos anos 60. A Nova Leitura publica hoje cerca de 50 mil. “Não surgiu uma nova leva de leitores”, diz o editor.
Os seis autores de sua folha de pagamentos já são velhos, como os irmãos Rocha, do Espírito Santo, ou estão trocando de gênero, como Júlio Emílio Braz, que agora escreve infanto-juvenis para editoras grandes como a FTD.

Braz diz que ainda escreve alguns livros “pulp”, mas só “por prazer”. Ele também acha que o mercado está agonizando. A Folha apurou que ele ganha apenas R$ 20 para escrever um livrinho desses. “Está acabando”, diz.

Essa espécie em extinção já teve seres vistosos. A ficção barata é uma criatura americana dos anos 20 (leia texto abaixo), mas os poucos brasileiros que a praticaram fizeram jus ao estilo.

Entre eles estavam Nelson Rodrigues, o dramaturgo de “Vestido de Noiva” e “Álbum de Família”, e David Nasser, o famoso jornalista de “O Cruzeiro”.

Nelson, sob o pseudônimo Suzana Flag (cuja paternidade ele odiava que revelassem), escreveu em 1944, para ganhar uns trocados, “Meu Destino É Pecar”, um folhetim melodramático de muito sucesso vendeu 50 mil exemplares em cinco meses.

Por sua vez, Giselle de Monfort na vida real, David Nasserassinava “pulp” puro. O título do primeiro livro de Monfort era “Giselle, a Espiã Nua que Abalou Paris”. Nele, fotos de modelos, feitas pelo documentarista Jean Manzon, davam o toque de sensualidade. O tom eróticopolicial característico da ficção barata ainda teve representantes nos anos 70, como Silvam Paez, criador do detetive João Juca Júnior. Nos anos 80, reinou Inoue. Hoje, não restam monarcas nesse reino decadente.

CC BY 4.0 Pulp Fiction by Jornalismo Colaborativo is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Sobre o Autor

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