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Um relato sobre o último desembarque de escravizados no Brasil

Era dez de outubro de 1855, quando um veleiro atracou junto à Ilha de Santo Aleixo, no distrito de Barra de Sirinhaém, na Província de Pernambuco. Na embarcação, que veio de Angola, havia em torno de 250 africanos escravizados, espremidos num espaço que, segundo o Consul inglês Cowper, era muito pequeno para muita gente. Dos 250 humanos em condições desumanas, 220 eram meninos, e o restante, mulheres. Foi o último desembarque de escravos no país.

O coronel Gaspar de Menezes Vasconcelos Drumond estava no engenho Trapiche, quando foi procurado por um indivíduo que gostaria de lhe apresentar um “carregamento”. O sr. Drumond era um delegado de Sirinhaém, afastado em 1849. Quando soube que o tal “carregamento” era, na verdade, 250 pessoas escravizadas, reassumiu de pronto a autoridade e procedeu a apreensão do veleiro. Segundo o Jornal O Liberal Pernambucano, houve a recuperação imediata de 166 pessoas. O capitão da embarcação acabou escapando.

O sr. Drumond deu parte do ocorrido a José Bento da Cunha Figueiredo, presidente da província de Pernambuco há época, alegando que havia reassumido sua função como delegado, tendo em vista que Sirinhaém estava sem autoridades naquele momento. A alegação do coronel era, segundo O Liberal Pernambucano, o “corpo de delito” do presidente José Bento, já que ele, o presidente, teria sido avisado com antecedência sobre um desembarque de escravos que haveria no local e não tomou providências. A Lei Eusébio de Queiroz, de 1850, já proibia o tráfico de negros escravizados para o Brasil.

O ex-delegado recebeu uma proposta de mudar de ofício para que sua declaração ficasse suprimida. A proposta foi feita pelo próprio presidente José Bento, por meio do chefe de polícia Paiva Teixeira. O sr. Drumond não aceitou e passou a ser perseguido. Seu filho, Antonio, foi preso e, posteriormente, liberto. Esse cenário mostrou à opinião pública e aos jornais da época que José Bento tinha culpa no cartório com relação ao escândalo do desembarque de africanos escravizados em Sirinhaém. A Inglaterra também entendia dessa maneira.

Se não fossem aqueles dois empregados [José Bento e Paiva Teixeira] as coisas teriam marchado tão diversamente do que marcharam com eles, que o governo inglês, em vez de nos afrontar com novos insultos, daria um documento mais de louvor à sinceridade com que o governo imperial procede para a completa extinção do tráfico – O Liberal Pernambucano, 1856

Lord Palmerston, há época primeiro ministro da Inglaterra, enfureceu o governo brasileiro ao emitir um “aviso amigável”. Palmerston dizia que, se as medidas para lidar com infratores e impedir futuros desembarques não fossem adotadas, seria necessário recolocar os navios britânicos de guerra no atlântico para combater o tráfico de escravos no litoral, nos rios e nos portos do Brasil.

A sinceridade do governo brasileiro contra o comércio de escravos é a mesma sinceridade de um ladrão de carteiras que mantém as mãos no bolso da jaqueta de alguém enquanto olha os olhos de um policial fixados nele – Lord Palmerston, primeiro ministro da Inglaterra, citado no livro The Abolition of the Brazilian Slave Trade, de Leslie Bethel

Notas como esta do primeiro ministro Palmerston foram chamadas de “insolentes” pelo O Liberal Pernambucano e geraram indignação, repulsa e mágoa no Brasil.  O primeiro ministro se manifestou após o escândalo do desembarque de 250 africanos escravizados no território de Sirinhaém. O caso gerou “dissabores” nas relações internacionais entre Brasil e Inglaterra e é lembrado na historiografia como “O Desembarque de Sirinhaém”.


Fontes:

BETHEL, Leslie. The Abolition of the Brazilian Slave Trade: Britain, Brazil and the slave trade question 1807-1869. Cambridge: Cambridge University Press, 1970.

CADENA, Paulo Henrique Fontes. O Vice-Rei: Pedro de Araújo Lima e a Governança no Brasil no século XIX. Tese (doutoramento em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas – Universidade Federal de Pernambuco. Recife, p. 325. 2018.

CARVALHO, M. J. M. O desembarque nas praias: o funcionamento do tráfico de escravos depois de 1831. Revista de História. São Paulo, nº 167, p. 223-260. Julho/dezembro. 2012.

CARVALHO. M. J. M. A rápida viagem dos ‘Berçários Infernais’ e os desembarques nos engenhos do litoral de Pernambuco depois de 1831. In: Do tráfico ao pós-abolição: trabalho compulsório e livre e a luta por direitos sociais no Brasil./ Organizadoras: Helen Osório e Regina Célia Lima Xavier – São Leopoldo: Oikos, 2018.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Publicação a pedido:  o Sr. José Bento e o Sr. Paiva Teixeira são réus de lesa majestade. O Liberal Pernambucano. Recife. p. 3, 27 de junho de 1856.

CC BY 4.0 Um relato sobre o último desembarque de escravizados no Brasil by Gabriel Neves is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Pernambucano. Jornalista. Interessado na questão agrária brasileira e na demonstração dos limites do jornalismo tradicional. .

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