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Especial JC · Memória · São José dos Campos · Histórias de vida

Hoje, 3 de setembro, Josué dos Santos completaria 82 anos. A data chega poucas semanas depois de sua despedida e recoloca em primeiro plano uma vida construída em gestos constantes: um livro colocado nas mãos de uma criança, incentivo para continuar os estudos, presença na igreja, disciplina no trabalho e ajuda oferecida quando alguém precisava.

Há poucas semanas, o nome de Seu Josué apareceu em uma reportagem do Jornalismo Colaborativo sobre o escritor Ryoki Inoue, que chegava aos 80 anos cercado por cuidados. Josué surgia ali ligado a uma cama hospitalar que, depois de servir à sua família, seguiu para atender outra pessoa.

Era uma participação breve dentro daquela história. O gesto dizia muito.

Agora, no dia em que completaria 82 anos, sua trajetória permite enxergar o homem por inteiro por trás daquela cena. Josué fez do conhecimento, da fé e da generosidade uma forma cotidiana de cuidado.

Um joseense por inteiro

Josué dos Santos nasceu em São José dos Campos em 3 de setembro de 1944. Era filho de Joana Maria de Jesus, empresária do ramo de lavanderia, e de Valêncio Manoel dos Santos, lavrador.

A cidade acompanhou praticamente todas as etapas de sua vida. Primeiro veio a região de Santana, nas proximidades da Casa do Jovem, quando aquele trecho de São José ainda preservava características rurais. Mais tarde, o Jardim Satélite, na Zona Sul, tornou-se endereço da família.

Ao lado de Maria Helena dos Santos, Josué construiu uma casa numerosa. Foram nove filhos, 16 netos e quatro bisnetos. A dimensão dessa família aparece nos números; sua influência surge melhor nas histórias guardadas por quem cresceu perto dele.

Seu Josué acompanhava a formação das pessoas. Incentivava os estudos, colaborava com quem buscava avançar academicamente e tratava a educação como patrimônio capaz de acompanhar alguém pela vida inteira. O conhecimento, em sua maneira de pensar, abria caminhos e ampliava horizontes.

Josué dos Santos sentado à mesa durante um momento de convivência
A convivência cotidiana também compõe a memória de Seu Josué. Foto: arquivo da família.

A “Enciclopédia Barsa” da família

Entre os apelidos carinhosos recebidos ao longo dos anos, dois resumem uma de suas marcas mais reconhecidas: “enciclopédia ambulante” e “Enciclopédia Barsa”.

Josué lia muito, guardava informações, associava assuntos e cultivava uma memória que surpreendia quem conversava com ele. Mantinha coleções de livros, foi assinante durante anos do Círculo do Livro e da revista Seleções e procurava aproximar filhos e netos da leitura.

A Coleção Vaga-Lume e a Folhinha de S.Paulo fizeram parte desse ambiente doméstico de formação. Eram portas de entrada para um hábito que ele considerava essencial.

Há algo especialmente revelador nessa relação com os livros. Seu Josué acumulava repertório e gostava de fazê-lo circular. O saber ganhava valor quando ajudava outra pessoa a crescer.

Essa característica também aproxima, de maneira inesperada, duas histórias já publicadas pelo Jornalismo Colaborativo. Ryoki Inoue construiu uma vida escrevendo em escala extraordinária. Josué pertenceu ao universo dos livros como leitor persistente, curioso e formador de outros leitores.

Seu acervo mais duradouro talvez esteja justamente nas pessoas que aprenderam a gostar de aprender.

Josué dos Santos sorrindo e segurando uma caneca
O sorriso de Seu Josué em um registro preservado pela família. Foto: arquivo da família.

Trabalho, disciplina e responsabilidade

A vida profissional de Josué foi construída na General Motors, onde trabalhou como industriário até a aposentadoria.

O relato biográfico preparado pela família registra inteligência, competência, responsabilidade e assiduidade entre as marcas de sua atuação. São características que reaparecem em outros campos de sua trajetória.

Havia constância no trabalho, compromisso com a casa, dedicação à leitura e presença na comunidade religiosa. Em vez de procurar grandes gestos, Josué parecia confiar na força daquilo que se pratica muitas vezes, ao longo dos anos.

Essa permanência ajuda a compreender sua influência familiar. Apoiar os estudos de alguém produz resultados que podem aparecer muito tempo depois. Um conselho atravessa décadas. Um livro dado na hora certa muda uma relação com a escola. Uma oportunidade oferecida passa a integrar a história de outra pessoa.

Seu Josué participava desse tipo de transformação discreta.

Uma fé traduzida em presença

A espiritualidade ocupou um lugar profundo em sua vida.

Josué participou ativamente da Igreja Cristã Evangélica Central e, posteriormente, da Igreja Presbiteriana do Jardim Augusta, onde integrou o presbitério e colaborou com a comunidade.

Seu versículo bíblico favorito era Josué 1:9. A passagem reúne força, coragem, perseverança e confiança na presença de Deus. Para a família, essas palavras traduziam com precisão a maneira como ele procurava conduzir a própria caminhada.

A fé aparecia ligada ao cuidado concreto. Josué ajudou familiares e pessoas da comunidade, apoiou projetos de formação e ofereceu recursos quando percebia uma necessidade ao redor.

Generosidade, para ele, tinha forma prática.

O conhecimento ocupava espaço central em sua vida, mas ganhava sentido completo quando podia abrir caminho para outra pessoa.

A cama que continuou seu caminho

Depois da despedida de Josué, uma cama hospitalar ligada à família encontrou uma nova casa e uma nova finalidade.

O equipamento havia chegado aos familiares por meio de um sorteio ligado ao Hospital Santos Dumont. Depois, foi destinado à Igreja São Peregrino, onde passou a integrar um rodízio solidário de empréstimos para pessoas que precisam desse tipo de estrutura durante períodos de cuidado.

Foi assim que a cama chegou ao quarto preparado para o escritor Ryoki Inoue, em São José dos Campos. A história foi contada pelo Jornalismo Colaborativo na reportagem O escritor de mil livros chega aos 80 anos cercado por cuidados.

“Espero que essa cama esteja ajudando muito o seu pai. Esse é o nosso objetivo: ajudar o próximo que necessita.”

A mensagem enviada à família de Ryoki oferece uma chave para compreender o legado de Seu Josué. O equipamento carregava uma utilidade imediata, mas também prolongava uma escolha cultivada durante décadas: colocar aquilo que se tem a serviço de alguém.

A cama tornou visível uma disposição que existia muito antes dela.

Conhecimento, incentivo, fé, trabalho e solidariedade pertenciam à mesma lógica de vida. Cada elemento encontrava valor na possibilidade de produzir algum bem ao redor.

O aniversário que agora pertence às histórias

Josué dos Santos e Maria Helena durante a celebração dos 80 anos dele


Josué e Maria Helena durante a celebração de seus 80 anos. Foto: arquivo da família.

Hoje seria dia de celebrar os 82 anos de Josué dos Santos.

A família chega a este 3 de setembro cercada por uma memória ainda muito próxima. Há hábitos que reaparecem, frases lembradas em conversas, histórias que ganham novos detalhes quando são contadas outra vez e ensinamentos que continuam presentes nas escolhas de filhos, netos e bisnetos.

Josué viveu 81 anos ligado à cidade onde nasceu. Formou uma família extensa. Trabalhou por décadas na indústria. Participou de comunidades religiosas. Reuniu livros. Acompanhou jornais e revistas. Estimulou a leitura. Incentivou pessoas a estudar. Fez da ajuda uma prática cotidiana.

O relato biográfico preparado pela família registra ainda o desejo de que sua ligação com São José dos Campos seja preservada publicamente por meio da denominação de uma via municipal com seu nome.

Antes de qualquer placa, sua memória já ocupa outros lugares.

Está em quem avançou nos estudos com seu incentivo. Nos filhos que carregam referências recebidas em casa. Nos netos e bisnetos que herdaram histórias. Nas comunidades religiosas onde deixou convivência e serviço. Está também naquele equipamento hospitalar que atravessou a cidade para acolher alguém que ele jamais chegou a conhecer.

Josué dos Santos falando ao microfone durante a celebração de seus 80 anos
Seu Josué fala à família durante a comemoração dos 80 anos. Foto: arquivo da família.

Foi por meio dessa cama que seu nome entrou discretamente em nossa reportagem anterior. Neste 3 de setembro, a história pode ser contada por inteiro.

Josué dos Santos faria 82 anos hoje. Sua ausência é recente. O modo como viveu, porém, continua encontrando caminhos para chegar aos outros.

Nota de apuração: as informações biográficas desta reportagem foram reunidas a partir de relato fornecido pela família de Josué dos Santos. Os dados sobre a cama hospitalar, o rodízio solidário e sua chegada à casa de Ryoki Inoue integram a apuração já publicada pelo Jornalismo Colaborativo. As fotografias pertencem ao arquivo da família.

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