Nota do Editor
- Este artigo examina a ressignificação de Tiradentes e sua relevância na discussão atual sobre saúde mental no Brasil. Amparado em dados oficiais, revela avanços e retrocessos que comprometem a dignidade de pessoas com transtornos mentais. Em meio à instrumentalização da memória e à interferência de interesses políticos, reafirma o compromisso com a crítica fundamentada, a defesa dos direitos humanos e a promoção da justiça social.
A memória de Tiradentes ilumina um debate central da saúde mental brasileira: o direito ao cuidado em liberdade e o fim de uma cultura que transformou sofrimento psíquico em exílio social.
Um símbolo dentro da vida brasileira
Todo país carrega figuras que deixam de fazer parte apenas à história e passam a habitar a vida interior da sociedade. Tiradentes ocupa esse lugar no Brasil. Sua imagem atravessou gerações como emblema de coragem diante do arbítrio, fidelidade a uma ideia de liberdade e resistência contra a violência do poder.Na psicologia coletiva, símbolos assim ajudam a organizar valores, afetos e referências morais. Dão linguagem a medos difusos, desejos públicos e pactos de pertencimento. Tiradentes, sob essa ótica, reaparece como presença cívica sempre que o país enfrenta perguntas decisivas sobre dignidade, autoridade e justiça.
O 21 de Abril, portanto, pode servir a algo maior que a reverência protocolar. A data abre conversas que tocam o centro ético da vida nacional. Entre elas, a desmanicomialização ganha força por expor como o Brasil lidou, durante décadas com a dor psíquica, a diferença e a fragilidade humana.
Quando o sofrimento virava desterro
Durante muito tempo, o manicômio operou como um instrumento de apagamento. A internação psiquiátrica, em inúmeros casos, significava rompimento de vínculos, perda de voz, afastamento da sociedade e suspensão da própria condição de sujeito. Atrás dos muros, acumulavam-se abandono, contenção, medicalização pesada, rotina desumanizante e uma lógica institucional que tratava pessoas como problema a ser retirado de circulação.
A brutalidade desse modelo ultrapassava a precariedade material. Havia ali uma visão de mundo. O sofrimento mental era lido como ameaça à ordem, desvio a ser isolado, corpo incômodo entregue a uma engrenagem de tutela. O hospital, muitas vezes, ocupava o lugar do castigo social.
Esse passado ainda reverbera. Ele deixou marcas em famílias, comunidades, profissionais e no imaginário do país. Também revelou um traço duro da formação brasileira: a tendência de empurrar para longe aquilo que perturba a superfície da normalidade. A loucura, sob esse arranjo, virava território de silêncio. O cuidado se afastava da experiência humana e a exclusão ganhava aparência de uma simples solução.
Liberdade como prática de cuidado
É nesse ponto que a luta de Tiradentes encontra a agenda da saúde mental. Em campos distintos, ambas tocam a mesma questão de fundo: a relação entre poder e dignidade. De um lado, a resistência diante da opressão política. De outro, a defesa da pessoa em sofrimento contra estruturas que sequestram autonomia, palavra e presença pública.
A desmanicomialização nasce desse enfrentamento. Seu horizonte reside no cuidado em liberdade, na rede territorial, na escuta clínica, no vínculo comunitário e no reconhecimento de direitos. Seu centro ético repousa sobre uma ideia simples e profunda: ninguém perde humanidade por atravessar delírio, depressão grave, crise, dependência, desorganização psíquica ou qualquer experiência extrema da dor.
Trata-se de uma mudança institucional, clínica e civilizatória. Institucional, porque desloca o eixo do confinamento para serviços abertos e integrados ao cotidiano. Clínica, porque substitui o isolamento pela construção de projeto terapêutico singular. Civilizatória, porque exige da sociedade uma revisão do próprio olhar sobre sofrimento, diferença e vulnerabilidade.
O destino dado à fragilidade
O ser humano revela sua verdade moral na forma como acolhe aqueles que vivem momentos de maior fragilidade. A saúde mental expõe esse teste com uma clareza incômoda. Ali, democracia deixa de ser abstração e passa a ter corpo, endereço, espera, escuta, continuidade e acompanhamento profissional.
Relacionar Tiradentes com a desmanicomialização, portanto, faz sentido pleno no campo da psicologia social. Símbolos nacionais moldam sensibilidades. Eles ajudam a dizer quem merece reconhecimento, quem ocupa lugar na memória e quais vidas o país decide proteger. Quando a liberdade celebrada no plano cívico alcança a política de saúde mental, ela deixa o monumento e entra na experiência concreta.
Essa passagem altera o centro do debate. A discussão deixa de girar em torno de contenção e controle e passa a examinar pertencimento, cuidado, vínculo e direito à cidade. O foco sai do incômodo social provocado pela crise e se desloca para a responsabilidade coletiva diante de quem sofre.
Memória, exclusão e escolha pública
O 21 de Abril carrega, assim, uma potência rara. A data recorda um personagem histórico e, ao mesmo tempo, convoca o país a examinar os próprios mecanismos de exclusão. Cada época ergue seus muros. Alguns aparecem em pedra e ferro. Outros se instalam na linguagem, no estigma, nas instituições e na indiferença cotidiana.
A luta pela desmanicomialização enfrenta exatamente esse segundo tipo de muralha. Ela pede coragem pública para sustentar uma política de cuidado que devolva lugar, voz e laço social a quem passou décadas reduzido a diagnóstico, perigo ou incômodo. Pede também maturidade para reconhecer que o sofrimento psíquico integra a condição humana e exige resposta densa, contínua e digna.
Tiradentes foi condenado por insurgência contra a Coroa, mas a memória em torno de seu nome também conheceu a linguagem do rebaixamento. Em vários momentos, a dissidência foi tratada como descontrole, excesso, perturbação da ordem. Esse mecanismo atravessa a cultura brasileira com impressionante permanência. Durante muito tempo, a dor psíquica recebeu tratamento semelhante e foi empurrada para fora do convívio como se o afastamento pudesse restaurar a paz do convívio público. A agenda antimanicomial rompe essa lógica ao afirmar que a dignidade segue inteira mesmo nos períodos de crise, que a fragilidade pede vínculo em vez de exílio e que toda sociedade revela sua estatura moral na forma como sustenta a presença de quem mais precisa de amparo.
Fonte: Psicanálise – Psicologia Clínica
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