Você provavelmente já teve a sensação de que o mundo está mais violento. A sucessão diária de assassinatos, guerras, ataques e tragédias parece confirmar essa impressão. Mas uma pergunta incômoda precisa ser feita: estamos diante de um crescimento real da violência ou de um crescimento da exposição à violência?
A resposta, sustentada por dados históricos e estudos sobre comportamento humano, é mais complexa — e menos alarmante — do que parece. Em escala histórica, não.
O psicólogo e pesquisador Steven Pinker, no livro The Better Angels of Our Nature, reuniu séries históricas mostrando que as taxas de homicídio na Europa medieval eram até 30 vezes superiores às atuais. Execuções públicas, guerras frequentes e violência interpessoal faziam parte da rotina social. Dados compilados pelo projeto Our World in Data, da University of Oxford, indicam que as mortes em guerras, proporcionalmente à população mundial, caíram drasticamente após 1945. O chamado “longo período de paz” no pós-Segunda Guerra reduziu conflitos diretos entre grandes potências.
O Human Security Report, da Simon Fraser University, também aponta queda significativa nos conflitos armados desde os anos 1990. Isso não significa que o problema esteja resolvido. A América Latina, por exemplo, enfrentou aumento expressivo de homicídios entre 1980 e 2015. No Brasil, o pico foi registrado em 2017, com posterior queda segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O quadro global, portanto, não revela uma explosão inédita de violência — mas sim oscilações regionais combinadas com uma percepção amplificada.
O mundo não ficou mais violento. Ficou mais conectado.
Em 1950, para que um assassinato ocorrido em uma cidade distante chegasse ao conhecimento internacional, era necessário que tivesse enorme impacto político ou social. A informação passava por filtros editoriais rigorosos e dependia de agências como a Associated Press.
Hoje, qualquer ocorrência local pode se tornar global em minutos.
Segundo a International Telecommunication Union, mais de 5 bilhões de pessoas estão conectadas à internet. A cada minuto, centenas de horas de vídeo são enviadas ao YouTube, enquanto milhões de postagens circulam no Facebook e no X. O volume informacional é tão intenso que estudiosos frequentemente utilizam uma comparação provocativa: uma pessoa comum hoje recebe, em um único dia, mais informações do que um governante do Império Romano receberia em semanas — mesmo comandando dezenas de províncias em conflito. Ainda que a analogia não tenha fonte acadêmica precisa, ela ilustra uma realidade incontestável: nunca fomos tão expostos a acontecimentos globais.
O cérebro não evoluiu para lidar com 24 horas de tragédia
A psicologia ajuda a explicar o fenômeno: O economista comportamental Daniel Kahneman, no livro Thinking, Fast and Slow, descreve o “viés de disponibilidade”: tendemos a julgar a frequência de um evento pela facilidade com que exemplos vêm à mente. Se somos expostos diariamente a dez notícias violentas, o cérebro interpreta isso como evidência de aumento estrutural — mesmo que estatísticas mostrem estabilidade ou queda. Há também o fator econômico. Plataformas digitais operam sob a lógica da retenção de atenção. Conteúdos que despertam medo, indignação ou choque geram mais engajamento e compartilhamentos. Não se trata necessariamente de manipulação ideológica, mas de um modelo de negócios que favorece o impacto emocional.
O impacto psicológico é real
A sobrecarga informacional tem consequências mensuráveis. Relatórios da Associação Americana de Psicologia apontam correlação entre consumo excessivo de notícias negativas e aumento de ansiedade. Durante a pandemia, estudos mostraram que o acompanhamento contínuo de noticiários estava associado a sintomas depressivos. No Brasil, a jornalista Marília Gabriela declarou publicamente que decidiu reduzir drasticamente o consumo de notícias após perceber impacto em sua saúde mental. O fenômeno ganhou até nome em inglês: doomscrolling — o hábito compulsivo de rolar notícias negativas sem interrupção.
A distância entre percepção e realidade
Pesquisas da Gallup mostram que, em diversos países, a maioria da população acredita que o crime está aumentando mesmo quando os dados oficiais indicam queda. Esse descompasso revela um ponto central: a sensação de insegurança nem sempre acompanha a curva estatística. Vivemos na era da hiperexposição. Não é que a violência tenha se tornado necessariamente maior; ela se tornou onipresente na palma da mão. O mundo contemporâneo enfrenta desafios graves — conflitos regionais, criminalidade urbana, instabilidade política. No entanto, os dados históricos sugerem que não estamos vivendo o período mais violento da humanidade.
O que mudou radicalmente foi o fluxo de informação.
A humanidade saiu de um modelo em que a tragédia precisava ser extraordinária para atravessar fronteiras para um cenário em que qualquer evento local pode ganhar alcance planetário em segundos. O medo, portanto, pode estar menos ligado ao aumento real da violência e mais relacionado à intensidade com que ela nos é apresentada.
A pergunta talvez não seja “o mundo está pior?”, mas sim: “quanto do mundo precisamos consumir todos os dias para permanecer informados sem adoecer?”
