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Enquanto tudo escurece a escrita permanece com a vela acesa

Enquanto tudo escurece a escrita permanece com a vela acesa

Por falta de curiosidade, visão de longo prazo e vontade política, o investimento em Cultura no Brasil ainda ocupa um lugar secundário demais para um país que insiste em se pensar grande. O problema não está apenas na escassez de recursos. Está também na dificuldade histórica de compreender a cultura como infraestrutura de inteligência, memória, repertório e formação pública.

Esse despreparo aparece em episódios que deveriam constranger mais. A Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, uma das mais respeitadas do país, em vários momentos precisou de socorro financeiro para se manter atualizada. Quando uma instituição dessa relevância precisa lutar para sobreviver, o que se revela não é um caso isolado, mas um sintoma.

O mesmo vale para o Correio Braziliense, que precisou sangrar para assumir o patrocínio da edição dos 29 volumes correspondentes à história da primeira fase do jornal criado por Hipólito José da Costa, em Londres, em 1808. Preservar uma parte tão decisiva da memória da imprensa brasileira jamais deveria depender de esforço quase heroico.

Enquanto isso, empresas brasileiras seguem tratando cultura como ornamento eventual. Preferem alocar verbas em áreas de retorno mais imediato e visível, sobretudo no esporte, deixando em segundo plano livros, música, teatro, artes plásticas e outras expressões igualmente estruturantes da vida nacional. No cinema houve algum avanço. Ainda assim, o quadro geral continua estreito demais.

Quando a cultura continua pedindo licença para existir

Seria necessário que o governo, em vez de repetir fórmulas gastas ou discursos genéricos sobre valorização cultural, revisse com seriedade seus mecanismos de incentivo. O Brasil precisa de processos mais simples, mais claros e mais eficazes para estimular investimento privado em cultura. O excesso de barreiras, burocracias e ambiguidades afasta quem poderia apoiar e enfraquece quem mais precisa desse apoio.

Dizer que esporte também é cultura está correto. O desequilíbrio começa quando essa verdade vira justificativa para concentrar energia, recursos e atenção quase sempre na mesma direção. Nenhum país amadurece culturalmente tratando literatura, leitura e preservação intelectual como áreas residuais ou menos urgentes.

Essa distorção aparece de forma ainda mais cruel quando se observa a situação dos escritores iniciantes. As dificuldades para encontrar uma editora, circular minimamente e serem lidos diminuiriam bastante se existisse uma política pública realmente voltada aos emergentes. Isso não significa abandonar os autores já reconhecidos. Significa entender que quem ainda não teve acesso à estrutura de difusão precisa de mais impulso, não de menos.

O mercado da literatura que abandona seus autores antes de conhecê-los

Sempre haverá quem argumente que políticas de incentivo ampliadas facilitariam o aparecimento de má literatura ou de falsa cultura. O risco existe. Há muito trash circulando sob várias formas. Mas esse argumento costuma esconder uma preguiça de fundo: a de apoiar o terreno onde, entre obras fracas, também surgem vozes decisivas. Nenhum ecossistema literário amadurece apenas premiando o que já chegou pronto.

É justamente nesse ponto que o caso de Ryoki Inoue se impõe como exemplo. Recordista no Guinness Book, com mais de mil livros publicados, Ryoki escreveu sobre guerras, faroeste, espionagem, investigação policial, romance e biografia. Foi chamado de “Pelé da Literatura”, de “Ayrton Senna dos teclados”, mas ainda assim precisou se libertar dos editores para conseguir viver da escrita no Brasil.

O caso é emblemático porque desmonta dois preconceitos de uma vez. Primeiro, o de que literatura popular vale menos. Segundo, o de que produtividade elimina densidade. Ryoki provou que circulação ampla, disciplina de trabalho e impacto sobre leitores podem coexistir com repertório técnico, domínio narrativo e força de permanência.

Viver de literatura, no Brasil, nunca foi simples. Em ambiente de crise econômica, esse quadro se agrava. Para autores iniciantes, que muitas vezes ainda precisam pagar pela própria publicação, a travessia se torna quase inviável. Falta investimento, falta mediação editorial e sobra indiferença diante do que poderia ampliar o próprio plantel de bons escritores nacionais.

O livro caro, o leitor escasso e o círculo que se repete

O argumento mais repetido por empresas e patrocinadores é conhecido: o brasileiro lê pouco e, por isso, o patrocínio em literatura daria pouco retorno. Há uma parcela de verdade nessa leitura, mas ela é usada de forma preguiçosa, como se o problema fosse natural, inevitável, quase biológico. Não é.

Uma das razões centrais do baixo índice de leitura no Brasil está no preço do livro. E esse preço elevado não surge do nada. Ele faz parte de um círculo vicioso conhecido: pouca gente lê, então as tiragens diminuem; com tiragens menores, o custo unitário sobe; com o livro mais caro, menos gente compra; e o país continua reproduzindo a mesma escassez de leitores que depois usa como desculpa para não investir.

Esse raciocínio ajuda a entender por que tantas iniciativas relevantes seguem sufocadas. O problema não é apenas formar gosto. É garantir acesso material, circulação, presença e continuidade. Leitura não se expande com slogans. Ela depende de política pública, estímulo privado, distribuição e inteligência editorial.

Quebrar esse círculo talvez seja um dos maiores desafios culturais do país. Um caminho possível passa por leis de incentivo menos complexas, mais práticas e realmente funcionais. Outro passa por empreendedores dispostos a apostar em novos formatos, novos autores e novas tecnologias sem abrir mão de critério e curadoria.

Entre inovação real e política pública consequente

escrever-maquinaHá sinais de movimento. Iniciativas privadas podem, sim, contribuir para abrir espaço a novos talentos e novos modelos de circulação. É o caso da Web Startup, que se apresenta como agência e editora voltada a livros digitais e biografias empresariais. E também do Toca Livros, que apostou nos audiolivros como forma de facilitar acesso e ampliar hábitos de leitura.

Mas inovação privada, sozinha, não substitui política pública. Ela complementa. Nesse ponto, a criação do MEC Livros merece registro. A iniciativa do Ministério da Educação amplia o acesso público e gratuito a obras literárias em ambiente digital, com leitura pela internet via login gov.br e um acervo que já supera sete mil títulos. É um passo relevante num país em que o preço do livro ainda exclui muita gente.

O valor dessa iniciativa está em recolocar o livro dentro de uma lógica de acesso público mais ampla. Quando o Estado organiza uma biblioteca digital gratuita, reconhece, ao menos em parte, que leitura não pode permanecer refém apenas da renda disponível ou da sorte geográfica de cada leitor. Isso importa muito.

Ainda assim, convém manter a lucidez. Democratizar acesso é decisivo, mas não basta se o país continuar falhando na proteção de seus autores, no estímulo à produção contemporânea e na criação de um ambiente em que viver de escrita não seja quase sempre um exercício de desgaste. O Brasil precisa das duas frentes ao mesmo tempo: acesso ampliado aos livros e sustentação concreta para quem os escreve.

Afinal, em tempos de incerteza econômica e de mutação tecnológica no mercado editorial, o que continua valendo é a combinação entre criatividade, circulação, investimento e responsabilidade cultural. Sem isso, a inovação vira apenas vitrine. Com isso, pode se tornar transformação real.

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Rede de comunicação e plataforma editorial dedicada ao jornalismo colaborativo e à produção de informação baseada em evidências, conectando jornalistas, pesquisadores e cidadãos na construção de reportagens documentais voltadas à compreensão pública. Reconhecido pelo Prêmio Expocom da Intercom - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (2016), foi citado pela Revista Imprensa como referência em startups de jornalismo e integra projeto cultural aprovado pelo Ministério da Cultura do Brasil. A iniciativa também dialoga com redes internacionais como o CJS e o Center for Cooperative Media.

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