
Em 1995, o jornalista e crítico cultural Daniel Piza já observava, com a precisão de quem acompanhava de perto o mercado editorial brasileiro: “Yes, nós tínhamos pulp fiction!”. No artigo “Mercado de ‘pulp fiction’ agoniza no país”, Piza chamava atenção para a queda na produção nacional desses livros populares, publicados em larga escala, vendidos em bancas e responsáveis por formar o hábito de leitura de muitos brasileiros.
A crítica de Piza mirava um fenômeno concreto. Editoras como Nova Cultural, Nova Leitura e Monterrey, que ainda publicavam livros de papel barato com histórias de bangue-bangue, aventura, suspense e romances femininos, passaram a editar majoritariamente traduções. A ficção popular brasileira, que durante anos ocupou bancas de jornal e circulou fora dos circuitos literários tradicionais, perdia espaço dentro do próprio país.
Chama-se pulp fiction a literatura impressa em papel barato, derivado da polpa da celulose. A expressão acabou associada a obras de ficção popular, de leitura rápida, forte apelo narrativo e circulação massiva. No Brasil, esse universo teve papel decisivo na formação de leitores, embora tenha sido frequentemente tratado como produção menor por parte da crítica literária.
Segundo Piza, entre outras razões, o mercado brasileiro de livros baratos havia sofrido forte baixa em 1992, quando o chamado “Autor dos Mil Livros” parou de escrever para essas editoras. A observação ajuda a medir o peso de um autor que, durante anos, sustentou parte expressiva de uma cadeia editorial formada por coleções populares, bancas, selos comerciais e leitores habituados a encontrar histórias brasileiras a preços acessíveis.
Considerado pelo Wall Street Journal como um dos mestres do gênero, José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue é, segundo o International Guinness Book of Records, o escritor brasileiro que mais publicou livros até hoje.
Com mais de 1.200 títulos na carreira desde 1986, Ryoki chegou a dominar 95% do mercado de pocket books publicados no Brasil. Escreveu 999 novelas em seis anos, transitando por histórias de guerra, espionagem, faroeste, romances policiais, aventura e outros gêneros da literatura popular.
Até seu milésimo livro, E agora, Presidente?, seus editores exigiam o uso de pseudônimos. Ryoki criou 39 nomes diferentes, estratégia que ajudou a fortalecer selos e coleções distribuídos em bancas de jornal de todo o país.
O sonho de se tornar escritor levou o Dr. Ryoki, formado pela USP e especialista em cirurgia do tórax, a deixar a medicina. A decisão resultou na construção de um método próprio de criação literária, reconhecido posteriormente pela crítica e associado a uma das trajetórias mais singulares da literatura brasileira.
