Mesmo com o avanço da era digital e das IAs, há personagens que não podem ser esquecidos. Um deles é Deolindo Barreto. Foi mártir na luta pela liberdade de imprensa, fundador e diretor do jornal A Lucta. Foi preso, perseguido, tocaiado, alvo de forte censura religiosa e, por fim, trucidado à bala, em plena luz do dia, na Câmara Municipal de Sobral, no Estado do Ceará.
Não satisfeito com a vida que levava, o jovem Deolindo parte para a Amazônia, mais precisamente para Belém do Pará, onde, por oito anos, foi tipógrafo do jornal A Província do Pará.
No início da década de 1910, retorna a Sobral, trazendo consigo, em sua bagagem, uma máquina tipográfica e, na cabeça, tudo o que aprendera. De origem humilde, sua principal formação fora aquela recebida como tipógrafo no periódico paraense.
Morando de favor, aos fundos de uma garagem, começa a imprimir rótulos, convites e cartões de festas. Entretanto, vendo que não tinha temperamento para esse tipo de trabalho, começa a editar um jornal em formato diminuto chamado A Mão Negra.
Seus opositores, os Marretas, como eram chamados os membros da oligarquia cearense, ao perceberem a presença indesejável do novo jornal, lideram, por meio de Chico Monte, juntamente com seus fiéis seguidores, marretistas convictos, uma passeata com o propósito de fazer baderna em frente à casa do jornalista.
Segundo relatos memorialísticos, é aí que, com muita presteza e coragem, Deolindo põe todo o grupo para correr, ameaçando explodir uma granada que carregava consigo, quando, na verdade, possuía somente um inofensivo novelo de linha.
Em represália ao acontecido, a porta de sua casa amanhece cravejada de balas no dia seguinte. Com discursos e artigos cada vez mais inflamados, começa a desferir ataques mais duros aos seus oponentes. Sabendo disso, a polícia, corrompida, o intima a suspender a publicação do jornal. Ele acata a decisão, mas apenas em parte, pois logo depois, numa ousada reação, lança A Mão Branca.
Desta vez, Deolindo é preso, mas, graças a um habeas corpus, é solto.
É chegado o momento decisivo. Em 1º de maio de 1914 nasce A Lucta, por ele mesmo considerado: “Uma temeridade vir doutrinar em um meio onde a politicagem e os preconceitos não admitem a reparação sensata da imprensa”. Ainda no mesmo jornal, garante: “Não nos intimidarão os arreganhos potentados nem as ameaças dos tiranetes improvisados de um dia”.
E assim segue, desferindo golpes semanais contra os poderosos sobralenses, sem deixar de perceber as inimizades que vinha semeando. Certa vez, durante uma novena, segundo versões locais, Deolindo sofre mais uma represália. Surge um tal Silvestre, de arma em punho, e Chico Monte, seu arquirrival, de punhal, para atacá-lo. Sem ver saída, corre, enquanto estampidos de balas rasgam o ar sobre sua cabeça.
Diante do tumulto provocado, Chico Monte ordena, sob ameaça de bala, que a banda tocasse o Hino Nacional para exaltar o reprovável feito. Monte era temido e espalhava terror por toda a cidade. Já vereador do Partido Conservador, trava, em 1922, em pleno mercado central, um duelo mortal com o tenente Castello Branco, ocasião em que faz sua primeira vítima.
O jornalista, mesmo sabendo que já corria iminente risco de vida, declara guerra total aos atos extremistas que provocaram a morte do tenente por seu inimigo, absolvido desse crime por “trás dos panos”, por juízes corrompidos e tendenciosos. Mesmo sem querer, o jornal provocava repulsa até no meio religioso, pois Deolindo defendia o casamento civil sobre o religioso e ainda reproduzia crônicas escritas pelo maranhense Humberto de Campos, sob o pseudônimo Conselheiro XX, consideradas profanas por conter teor erótico.
Por isso e outras razões, a burguesia sobralense, aliada agora à Igreja Católica Romana, tenta de todas as maneiras boicotar A Lucta. Manobra para afastar seus correligionários, impedir assinaturas e propagandas oficiais, mas nada disso adianta, pois, afinal de contas, A Lucta era o jornal mais lido e polêmico da cidade.
Prosseguem as denúncias contra juízes, padres e defloradores impunes. Mas, infelizmente, a cabeça de Deolindo já estava rifada. No dia marcado para sua morte, o dia da eleição, toda a guarda que fazia cerco ao prédio da prefeitura foi, imotivadamente, retirada. Sua esposa, Mariinha, ao pressentir o que ia acontecer, pede para que ele não compareça à sessão.
Porém, o teimoso Deolindo, sempre muito corajoso e independente em suas atitudes, não atende ao apelo, até por não acreditar que seus opositores seriam capazes de tamanha audácia, correndo o risco de chamar a atenção de todo o país. Infelizmente, Deolindo estava errado.
No dia seguinte, às 9h da manhã, de fraque novo, marcha ao encontro da morte. Estranha a ausência de policiais, segue em frente e, ao galgar os últimos degraus da escada da Câmara Municipal, depara-se com seu maior desafeto e seus capangas.
Ao começar o pleito, inicia-se a briga em torno da legitimidade da presidência da sessão. Deolindo é agarrado, tenta fugir, cai do gradil e é encostado na parede. Logo após, segundo os relatos sobre o episódio, soa uma fuzilaria, com mais de 20 revólveres disparando simultaneamente contra seu corpo. Ele cai agonizando.
É quando surge, no clímax dessa barbárie, em meio a uma fumaça densa de pólvora, Chico Monte e, com um gesto macabro, desfere, à queima-roupa, tiros nos dois pés do jornalista, que solta um grito ensurdecedor de aflição. Teimoso até com a morte, não morre na hora. Vive ainda por dois longos dias de dolorosa agonia.
Ao final da vida, foi assistido pelo padre José Ferreira Gomes, a quem pediu os sacramentos da confissão e da comunhão. No confuso processo aberto para identificar os atiradores, nada foi apurado. Ninguém foi responsabilizado pelo acontecido. Sua mulher e seus sete filhos se desfazem da oficina e se mudam para Fortaleza.
Bem, esse é um resumo da história desse grande ícone que entregou sua vida pela verdade. Ele era irmão de meu bisavô Chagas Barreto, que, para efeitos civis, nem é considerado meu parente, mas confesso que sua biografia me despertou uma profunda curiosidade. Para saber mais sobre sua vida, existem livros que tratam de sua existência.
O mais completo deles é, sem dúvida, o livro Vida, paixão e morte de Etelvino Soares, publicado pela editora Maltese e escrito pelo imortal membro da ABL, Lustosa da Costa. Ele descreve a história numa versão romanceada, em que troca, não sei por qual motivo, os nomes verdadeiros por fictícios. O mesmo livro foi publicado também por uma editora portuguesa.
Há outro livro menor que trata do assunto: Inventário de Deolindo Barreto, da editora Corifeu, em que a organizadora da obra transcreve todo o processo cível que tratou da sucessão de bens para seus filhos. Possui caráter histórico-documental.
Hoje, na praça em que foi covardemente assassinado, foi erigido um busto em sua homenagem, onde logo abaixo se transcreve: “Homenagem do povo sobralense a Deolindo Barreto no seu primeiro centenário, ao jornalista que fez da sua pena a espada para defesa dos humildes de espírito e dos que têm sede de justiça.” Sobral, 14 de maio de 1984.
Escritor, formado em História pela UFMA e doutorando em Letras pela UEMA.
Referências Bibliográficas:
A LUCTA, Sobral/CE.
BRASIL, Jocelyn. Andanças e Lembranças. 2. ed. Belém: Edições Aleutianas, 1990.
COSTA, Lustosa da. Clero, nobreza e povo de Sobral. Brasília: Senado Federal, Centro Gráfico, 1987.
COSTA, Lustosa da. Vida, paixão e morte de Etelvino Soares. São Paulo: Maltese, 1996.
PROCESSO CRIME DEOLINDO BARRETO (PCDB). Querelante: D. Maria Brasil Barreto Lima. Querelados: Francisco de Almeida Monte, Joaquim de Sousa e outros. v. 1. Sobral. Junho de 1924.
SANTOS, Chrislene Carvalho dos. Sentimentos no sertão republicano: imprensa, conflitos políticos e morte. A experiência política de Deolindo Barreto, Sobral (1908-1924). Tese (Doutorado em História), Departamento de História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas/SP, 2005.
