Nota do Editor
- A morte de Galdino Pataxó não pertence ao passado. Ela segue como prova de que a violência contra os povos indígenas, quando encontra impunidade, se converte em ferida pública e memória inconclusa.
Entre 2003 e 2024, ao menos 3.069 indígenas foram assassinados no Brasil em decorrência de conflitos territoriais, invasões de terras, garimpo ilegal e violência no campo, uma média de 139 mortes por ano.
Os números revelam uma escalada alarmante nas últimas décadas. O CIMI contabilizou 203 óbitos em 2021, 216 em 2020, 196 em 2019, 135 em 2018, 110 em 2017, 118 em 2016, 137 em 2015 e 138 em 2014.
Nos últimos dez anos, os assassinatos cresceram 201%, passando de 70 casos em 2014 para 211 em 2024.
Os números se mantêm elevados em meio à estagnação dos processos de demarcação, com terras indígenas inclusive já regularizadas registrando invasões e pressão de grileiros, fazendeiros, madeireiros e garimpeiros. Os estados mais letais seguem sendo Roraima, Amazonas e Mato Grosso do Sul, onde comunidades Guarani-Kaiowá e Yanomami concentram grande parte das ocorrências.
Esses dados, porém, não são apenas estatística. Por trás de cada número há um nome, uma liderança, uma luta interrompida. Um dos casos mais emblemáticos dessa violência aconteceu não em uma floresta remota, mas no coração do poder brasileiro.
Em 21 de abril de 1997, Brasília era o palco de uma tragédia para o povo Pataxó Hã-hã-hãe. Galdino Jesus dos Santos, aos 44 anos, carregava consigo a responsabilidade de uma liderança que buscava, nos gabinetes da capital, a demarcação de terras ancestrais no sul da Bahia. O líder indígena, que chegou a ser ouvido por autoridades do alto escalão, incluindo o então presidente Fernando Henrique Cardoso, teve sua missão tragicamente encerrada não por um entrave político, mas por um ato de violência gratuita e simbólica.
Após um dia exaustivo de reuniões que coincidiam com as celebrações do Dia do Índio, Galdino foi impedido de entrar na pensão onde estava hospedado devido ao horário avançado. Sem o acolhimento do abrigo pago, ele buscou repouso em um ponto de ônibus na W3 Sul. Foi ali, em um espaço público que deveria ser de segurança, que o líder foi surpreendido enquanto dormia.
O ataque, perpetrado por cinco jovens de estratos sociais privilegiados da capital, resultou em queimaduras de terceiro grau em 95% de seu corpo. Galdino resistiu por poucas horas. No hospital, antes de falecer em 21 de abril, sua última frase *”Por que fizeram isso comigo?”* deixou de ser uma pergunta individual para se tornar uma interrogação coletiva sobre a desumanização dos povos originários e das pessoas em situação de vulnerabilidade.
O desfecho jurídico do caso Galdino é frequentemente citado por especialistas em direitos humanos como um exemplo das disparidades do sistema penal brasileiro. Durante o julgamento, a linha de defesa alegou que o grupo pretendia apenas dar um “susto” na vítima, sob a justificativa de que o confundiram com um morador de rua, um argumento que, por si só, revelava uma visão de mundo onde certos corpos seriam alvos legítimos de agressões.
Embora condenados por homicídio doloso em 2001, o cumprimento das penas foi marcado por benefícios que raramente alcançam a população carcerária comum. A percepção de impunidade consolidou-se com o passar dos anos: hoje, os envolvidos estão plenamente reintegrados à sociedade e ocupam funções na administração pública, enquanto a família de Galdino e sua comunidade ainda aguardam a plena reparação histórica e territorial.
A memória de Galdino Pataxó foi imortalizada no próprio local da agressão, hoje renomeado como Praça Índio Pataxó Galdino Jesus dos Santos. O espaço conta com monumentos que contrastam o horror da violência com o desejo de paz, servindo como um ponto de reflexão para aqueles que transitam pelo coração do poder brasileiro.
O sacrifício de Galdino não foi em vão no que diz respeito à conscientização, mas permanece como uma ferida aberta. Sua história é um lembrete constante de que a justiça, para ser plena, não pode ser seletiva, e que a proteção aos defensores das causas indígenas é um dever urgente de um Estado que se pretende democrático.
Fontes Consultadas:
Memorial da Democracia – O assassinato do índio Galdino. Acervo Histórico do Jornal Correio Braziliense (Edições de abril de 1997 e 2001). Relatórios de Direitos Humanos sobre Conflitos de Terra no Brasil. Processo Judicial do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT). Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – CIMI / Agência Brasil.
