Cada mensagem enviada a um chatbot de inteligência artificial tem um custo que não aparece na tela. Uma conversa de 20 perguntas com sistemas como o ChatGPT consome o equivalente a uma garrafa de água mineral. Uma resposta de 100 palavras gerada pelo GPT-4 demanda cerca de 519 mililitros de água e 0,14 kWh de energia, segundo dados compilados pelo Washington Post e pela Business Energy UK. Com aproximadamente 285 milhões de respostas geradas diariamente por plataformas de IA, isso representa, por estimativa, 148 milhões de litros de água consumidos todo dia, somente para responder perguntas de usuários. O número equivale ao abastecimento diário de uma cidade de médio porte. E a demanda cresce sem freio.
A máquina que não para de beber
Por trás de cada pesquisa, cada vídeo em streaming e cada consulta a um sistema de inteligência artificial, existem galpões de servidores que operam 24 horas por dia e precisam ser resfriados continuamente. O calor gerado pelos processadores é dissipado por sistemas que usam água em larga escala. Em instalações com resfriamento evaporativo, cerca de 80% da água captada se transforma em vapor e é liberada na atmosfera, sem possibilidade de reutilização. Um datacenter de grande porte consome em média 300 mil galões de água por dia, o equivalente ao uso doméstico de 100 mil residências, segundo levantamento publicado em 2025.
O Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, vinculado ao Departamento de Energia dos Estados Unidos, estimou que em 2023 os datacenters americanos consumiram diretamente 64 bilhões de litros de água para resfriamento. O mesmo relatório calculou que o consumo indireto, gerado pelo uso de energia elétrica em usinas termelétricas que também dependem de água para operar, chegou a 800 bilhões de litros no mesmo ano, doze vezes superior ao consumo direto. As projeções para 2028 apontam que o volume direto pode dobrar ou até quadruplicar.
O que a IA adiciona ao problema
A inteligência artificial transformou a escala do problema. Antes da explosão dos modelos generativos, o crescimento do consumo de energia e água pelos datacenters era parcialmente compensado por ganhos de eficiência nos equipamentos. A chegada dos chips de IA de alta performance desfez esse equilíbrio. A densidade de potência por rack de servidores, que era de 20 kW no início de 2024, deve chegar a 50 kW em média até 2027. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, anunciou no evento GTC de 2025 que racks da linha Rubin Ultra, previstos para 2027, poderão consumir até 600 kW por unidade, um nível que pressiona os sistemas de resfriamento a limites sem precedente.
Um estudo publicado na revista científica Cell Reports Sustainability em dezembro de 2025, com base em dados divulgados pelas próprias empresas operadoras de datacenters, estimou que a pegada hídrica dos sistemas de IA pode alcançar entre 312,5 e 764,6 bilhões de litros em 2025. Para contextualizar: esse volume corresponde ao consumo global anual de água engarrafada. O mesmo estudo calculou que a pegada de carbono da IA pode equivaler em 2025 à emissão total de toda a cidade de Nova York em um ano.
Quando o datacenter disputa água com a cidade
O impacto sobre as comunidades locais transforma o debate de ambiental para social. Grandes datacenters podem consumir mais de 5 milhões de galões de água por dia, volume comparável ao abastecimento de cidades com 10 a 50 mil habitantes, segundo o Environmental and Energy Study Institute dos Estados Unidos. Em muitos casos, essas instalações se abastecem da mesma rede de fornecimento que serve residências, hospitais e escolas.
Em Loudoun County, na Virgínia do Norte, considerada a capital mundial dos datacenters com mais de 200 instalações operacionais, o consumo de água em 2023 chegou a 900 milhões de galões, um aumento de 63% em relação a 2019. A autoridade local de água passou a depender crescentemente do fornecimento potável para atender à demanda das instalações tecnológicas, em detrimento do abastecimento residencial.
No Texas, um estudo conduzido pelo Houston Advanced Research Center e pela Universidade de Houston calculou que os datacenters do estado consumirão 49 bilhões de galões de água em 2025, com projeção de salto para 399 bilhões de galões em 2030, volume que equivale a rebaixar o nível do maior reservatório dos Estados Unidos em mais de 4,8 metros em um único ano.
Na América do Sul, o problema chegou com força. No Uruguai, comunidades locais protestaram contra a instalação de novos datacenters enquanto o país ainda se recuperava de um período prolongado de seca. No Chile, o debate público se acirrou em torno da possibilidade de que essas instalações passassem a disputar os mesmos reservatórios que abastecem a população. Na Espanha, manifestantes na região de Aragão adotaram o slogan “Sua nuvem está secando o meu rio.”
O segredo que as empresas guardam
A dificuldade de dimensionar o problema com precisão tem nome: falta de transparência corporativa. Os relatórios de sustentabilidade são voluntários, seguem formatos distintos e raramente detalham o consumo indireto de água via consumo energético. A Amazon não divulga o volume de água consumido por seus datacenters. A Microsoft fornece dados globais, sem desagregar por instalação. A Meta divulga apenas um número consolidado. O Google é o que mais detalha, fornecendo dados individuais por datacenter, mas ainda sem parear consumo com tecnologia utilizada ou tamanho de cada instalação.
Em outubro de 2025, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, vetou o projeto de lei AB 93, que obrigaria operadoras de datacenters a divulgar estimativas de consumo de água por instalação às autoridades locais. O veto foi registrado após pressão intensa da indústria. A análise da empresa Bluefield Research estima que em 2025 os datacenters americanos retirarão diretamente 107 milhões de galões de água por dia, consumindo efetivamente 60% desse volume, principalmente pelo processo de resfriamento evaporativo. Quando se somam os 578 milhões de galões diários de consumo indireto via usinas geradoras de energia, o número total supera dez vezes o consumo direto.
Regulação e alternativas em disputa
O quadro regulatório global é fragmentado. A União Europeia aprovou em 2024 o Regulamento Delegado 2024/1364, que estabelece requisitos de reporte de eficiência hídrica para datacenters.
Singapura passou a exigir que operadores elevem gradualmente a temperatura operacional de suas instalações para reduzir a demanda por resfriamento.
A China incorporou padrões de eficiência hídrica diretamente em seus códigos de construção para datacenters.
Nos Estados Unidos, a regulação avança de forma fragmentada em nível estadual, enquanto no plano federal predomina a autorregulação voluntária.
O Brasil na corrida pelos data centers
O Brasil concentra 50% de todos os investimentos do setor de tecnologia na América Latina, com crescimento projetado de 8% até 2028, segundo a consultoria Arizton. Em setembro de 2025, o governo federal editou a Medida Provisória 1.318/2025, o Redata, que garante isenção de impostos na importação de equipamentos por cinco anos. A medida foi lançada sem determinação nacional sobre licenciamento ambiental para essas instalações.
A Brasscom calculou que os datacenters brasileiros responderam por 0,003% do consumo nacional de água em 2022, o equivalente a 2 bilhões de litros. A projeção para 2029 é de 30 bilhões de litros. Pesquisadores da USP e da Unifesp contestam a leitura e defendem que o uso de água potável para resfriamento deveria ser substituído por água de reuso por lei. No Congresso, o PL 2080/2025 propõe diretrizes de eficiência hídrica para o setor. O texto ainda tramita.
Segundo análise da MSCI publicada em 2025, cerca de 30% dos data centers atualmente em construção estão localizados em regiões onde a escassidade hídrica deve se intensificar até 2050. Em outros termos, a próxima geração de infraestrutura de IA está sendo erguida em territórios que terão cada vez menos água disponível.
As alternativas técnicas existem. Sistemas de resfriamento em circuito fechado podem reduzir o consumo de água em até 70%. O resfriamento por imersão, que mergulha os servidores em líquidos dielétricos não condutores, elimina quase completamente a dependência de água. A Microsoft anunciou em 2024 o objetivo de operar um datacenter com evaporação de água zero. O Google mantém uma instalação em Hamina, na Finlândia, que utiliza água do mar para resfriamento. Essas iniciativas, porém, seguem sendo exceção em um setor que ainda trata água como insumo barato e inesgotável.
A conta que o mundo digital apresenta aos recursos hídricos do planeta é real, crescente e, em grande parte, ainda invisível nas faturas de energia e nos termos de serviço dos aplicativos que milhões de pessoas usam todos os dias.
Referências (Exibir Todas)
SHEHABI, A. et al. 2024 United States Data Center Energy Usage Report. Lawrence Berkeley National Laboratory, Departamento de Energia dos Estados Unidos, dezembro de 2024.
DE VRIES-GAO, A. The carbon and water footprints of data centers and what this could mean for artificial intelligence. Cell Reports Sustainability, dezembro de 2025. DOI: 10.1016/j.crsus.2025.100zueira.
SIDDIK, M.A.B. et al. The environmental footprint of data centers in the United States. Environmental Research Letters, 2021. DOI: 10.1088/1748-9326/abfba1.
HOUSTON ADVANCED RESEARCH CENTER; UNIVERSITY OF HOUSTON. Water use projections for data centers in Texas, 2025-2030. Houston: HARC, 2025.
MSCI SUSTAINABILITY & CLIMATE. When AI Meets Water Scarcity: Data Centers in a Thirsty World. Nova York: MSCI, novembro de 2025.
ENVIRONMENTAL AND ENERGY STUDY INSTITUTE. Data Centers and Water Consumption. Washington: EESI, 2025. Disponível em: https://www.eesi.org/articles/view/data-centers-and-water-consumption.
BLUEFIELD RESEARCH. Data Center Water Secrecy Hurts Communities and the Industry Itself. Boston: Bluefield, dezembro de 2025.
UNIÃO EUROPEIA. Commission Delegated Regulation (EU) 2024/1364 for Data Centers. Bruxelas: Comissão Europeia, 2024.
