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A invasão que já corre pelos rios

A invasão que já corre pelos rios

Espécies exóticas avançam sobre rios, ecossistemas e saúde pública sem fazer barulho, mas com efeitos cada vez mais visíveis.

Eles chegaram escondidos em cascos de embarcações, dentro de aquários domésticos, em botas de turistas e em caminhões frigoríficos. Não pediram passagem e não têm inimigos naturais no novo território. Uma vez instaladas, as espécies exóticas invasoras se reproduzem em velocidade que as espécies nativas não conseguem acompanhar, dominam os recursos disponíveis e reescrevem de forma irreversível a lógica dos ecossistemas que invadem. Nos rios e lagos do planeta, essa guerra biológica já comprometeu a biodiversidade aquática, ameaça o abastecimento de água potável e representa um risco crescente à saúde pública.

O custo global das invasões

Os números que enquadram o problema são expressivos. Em 2019, o impacto econômico global das espécies invasoras ultrapassou 423 bilhões de dólares anuais, segundo levantamento da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos da ONU, o IPBES, conduzido por 86 pesquisadores de 49 países ao longo de quase cinco anos. No Brasil, apenas 16 espécies exóticas invasoras geraram prejuízos estimados entre 77 e 105 bilhões de dólares entre 1984 e 2019, o que corresponde a um custo mínimo de 2 a 3 bilhões de dólares por ano, segundo o Relatório Temático sobre Espécies Exóticas Invasoras, Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, publicado em 2024 pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, a BPBES, com a participação de 73 autores e 12 colaboradores de instituições de pesquisa e órgãos públicos.

A crise nos ecossistemas de água doce

O cenário nos ecossistemas aquáticos de água doce é particularmente grave. Um estudo publicado na revista Nature em 2025, com base na avaliação global de espécies ameaçadas da IUCN abrangendo 23.496 espécies de crustáceos, peixes e odonatos, concluiu que um quarto de toda a fauna de água doce está ameaçado de extinção. As invasões biológicas figuram entre as principais causas desse colapso, ao lado da destruição de habitats e das mudanças climáticas. Ecossistemas aquáticos ocupam menos de 1% da superfície terrestre, mas abrigam mais de 10% de todas as espécies conhecidas, incluindo cerca de um terço dos vertebrados e metade das espécies de peixes do planeta.

O Brasil no epicentro

No Brasil, detentor da maior riqueza de peixes de água doce do mundo, o mapa das invasões biológicas nos rios é alarmante. O Relatório da BPBES aponta que, em um levantamento de reservatórios nas drenagens costeiras do Atlântico Sul, Alto Paraná e Paraíba do Sul, praticamente a totalidade dos corpos d’água analisados já abrigava espécies exóticas. Metade deles continha tilápia-do-Nilo e tilápia-do-Congo, peixes africanos introduzidos massivamente para a aquicultura e que escaparam para os ambientes naturais. Na bacia do rio Paraíba do Sul, metade das espécies de peixes existentes já é formada por invasoras amazônicas, como o tucunaré, espalhado pelas regiões Sul e Sudeste por conta da pesca esportiva. Ao longo do rio Paranapanema, registraram-se 50 espécies de peixes exóticos, com impactos documentados sobre a fauna nativa residente.

Efeitos em cascata além das fronteiras ecológicas

O mecanismo de destruição provocado por essas espécies vai além da competição por alimento e espaço. Um estudo publicado na revista Nature Ecology and Evolution em 2024, conduzido pelo Instituto de Pesquisa Aquática Eawag e pela Universidade de Zurique, demonstrou pela primeira vez que os impactos das espécies invasoras não ficam confinados ao ecossistema invadido. As perturbações se propagam para além das fronteiras ecológicas, alterando o volume, a qualidade e os fluxos de organismos e materiais entre ambientes distintos, como florestas e rios, pradarias e estuários. Um único invasor pode, portanto, desencadear efeitos em cascata que reescrevem múltiplos ecossistemas ao mesmo tempo.

O mexilhão-dourado e a conta que não para de crescer

Nos rios brasileiros, um dos exemplos mais documentados dessa dinâmica é o do mexilhão-dourado, molusco asiático que entrou no país provavelmente por água de lastro de navios e já se espalhou pelas bacias do Paraná, Uruguai, Paraguai, São Francisco e diversas drenagens do Atlântico. Além de deslocar moluscos nativos e alterar o funcionamento dos habitats bentônicos, o mexilhão-dourado entope as grades e tubulações das usinas hidrelétricas. A limpeza das incrustações pode custar até 40 mil reais por dia em usinas de pequeno porte, e para grandes complexos, como Itaipu, a paralisação das turbinas pode gerar custos de até 5 milhões de reais por dia, segundo o relatório da BPBES.

Água contaminada e saúde em risco

A ameaça à saúde humana é outro vetor de preocupação que a ciência vem documentando com crescente atenção. Espécies invasoras do fitoplâncton, como certas cianobactérias e dinoflagelados, são capazes de desencadear florações que reduzem os níveis de oxigênio na água, causam mortalidade massiva de peixes e liberam substâncias tóxicas que contaminam organismos filtradores. Pessoas que se alimentam desses organismos ficam expostas a toxinas com capacidade de causar danos neurológicos, hepáticos e gastrointestinais. Além disso, a introdução de caramujos invasores em coleções d’água amplia o risco de transmissão de parasitas como Angiostrongylus cantonensis, agente da meningite eosinofílica. O mosquito Aedes aegypti, introduzido nas Américas provavelmente durante o tráfico negreiro do período colonial, é o exemplo mais visível de como uma espécie invasora pode remodelar o perfil epidemiológico de continentes inteiros, sendo responsável pela transmissão da dengue, zika, chikungunya e febre amarela urbana.

Quando o invasor compromete a torneira

A relação entre espécies invasoras e qualidade da água também age por caminhos menos visíveis. O aguapé, planta aquática nativa das bacias amazônica e do Rio da Prata, tornou-se a espécie vegetal invasora mais disseminada do planeta, presente em 74 das regiões examinadas pelo IPBES. Ao cobrir a superfície de lagos e represas, bloqueia a passagem de luz e reduz a oxigenação da água, comprometendo o ciclo de vida das espécies nativas e afetando a qualidade e o custo do tratamento para abastecimento humano. O aguapé foi o vetor da extinção das tilápias no Lago Vitória, na África, um dos maiores recursos pesqueiros do continente.

O vazio regulatório brasileiro

Apesar da gravidade documentada, o Brasil ainda não dispõe de uma lista nacional oficial de espécies exóticas invasoras. O Relatório da BPBES de 2024 aponta que as invasões biológicas são a mais negligenciada entre as cinco principais causas de perda de biodiversidade na gestão pública brasileira, em parte porque algumas espécies invasoras oferecem benefícios econômicos pontuais a determinados setores, criando conflitos de interesse que travam a regulação. A erradicação, uma vez que a invasão está estabelecida, é extremamente difícil e, em casos como peixes em grandes rios, praticamente impossível. O custo de não agir, entretanto, já ficou demonstrado pela ciência: é medido em espécies extintas, ecossistemas degradados, epidemias e bilhões de dólares em prejuízos que não voltam.

Referências (Exibir Todas)

IUCN RED LIST GLOBAL ASSESSMENT. One-quarter of freshwater fauna threatened with extinction. Nature, v. 638, p. 138-145, 2025. DOI: 10.1038/s41586-024-08375-z.

PELLER, T.; ALTERMATT, F. Invasive species drive cross-ecosystem effects worldwide. Nature Ecology and Evolution, 2024. DOI: 10.1038/s41559-024-02380-1.

IPBES. Invasive alien species and their control: Summary for policymakers. Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services. Bonn: IPBES, 2023.

PIVELLO, V. R. et al. Capítulo 4: Impactos de espécies exóticas invasoras sobre as comunidades e ecossistemas. In: Relatório Temático sobre Espécies Exóticas Invasoras, Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. São Carlos: Editora Cubo, 2024. p. 133-184.

JUNQUEIRA, A. et al. Relatório Temático sobre Espécies Exóticas Invasoras, Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), 2024.

ORTEGA, J. C. G. et al. Fish invasions in reservoirs of the South Atlantic coastal drainages, Upper Paraná and Paraíba do Sul. Hydrobiologia, 2015.

DUDGEON, D. Prospects for conserving freshwater fish biodiversity in the Anthropocene. Integrative Conservation, 2024. DOI: 10.1002/inc3.79.

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Rafael é jornalista de dados, escrevendo sobre memória, povos e cidades. Produz reportagens especiais de interesse público com foco desigualdades socioambientais e territoriais.

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