Uma série especial de reportagens sobre o coração líquido de Brasília e os segredos que ele esconde
O Lago Paranoá nasceu por decreto. Criado nos primeiros anos de Brasília para amenizar a aridez do Cerrado e embelezar a nova capital, o reservatório artificial virou, quase imediatamente, alvo de experiências que ninguém ousou chamar de equivocadas na época.
Entre março e dezembro de 1960, menos de um ano após o enchimento do lago, o governo lançou nas suas águas 145 mil tilápias do Congo, 6,5 mil exemplares de black-bass, 7 mil bluegills e ainda mandis e piaparas amazônicas. Nas décadas seguintes vieram carpas asiáticas, tucunarés e tambaquis. Cada espécie chegou com uma justificativa: enriquecer a pesca, alimentar famílias, atrair turistas. Nenhuma chegou com um plano para o que viria depois.
Das 67 espécies de peixes hoje no Paranoá, 15 são exóticas. Para especialistas, o lago é uma “salada biológica”.
O capítulo mais recente tem protagonista imponente: o pirarucu. O maior peixe de água doce da América do Sul, que pode passar de dois metros e 200 quilos, chegou ao Paranoá de forma clandestina, provavelmente por introduções intencionais ou pelo rompimento de tanques particulares nas margens do lago. Sem predadores naturais no reservatório, a espécie se instalou como soberana.
Em março de 2025, o Ibama publicou uma instrução normativa de resposta drástica: liberou a pesca, captura e abate do pirarucu no Paranoá e em outras áreas fora do seu habitat original, sem limite de cota nem tamanho mínimo. A regra é clara, exemplar capturado não volta à água.
O diagnóstico dos especialistas
Sem monitoramento de longo prazo, é impossível medir os danos reais. A pesca esportiva e de subsistência no lago já se concentra justamente nas espécies invasoras, as que mais afetam a qualidade de uma água que, paradoxalmente, abastece Brasília.
um projeto de jornalismo imersivo que vai às profundezas, literal e figurativamente, do coração líquido de Brasília. Nas próximas edições, mergulhadores exploram o fundo do reservatório em imagens inéditas; pesquisadores da UnB e da Embrapa revelam o que os dados oficiais não contam; e moradores das margens falam sobre um lago que a cidade usa, mas raramente conhece de verdade.
Fontes: Ibama/DF, Secretaria do Meio Ambiente do DF (Sema/DF)

