Nota do Editor
- Um retrato de como linguagem, escuta e circulação pública podem dar densidade ao cotidiano, fortalecer vínculos coletivos e ampliar o sentido de comunidade em uma cidade.
Entre o vinil, o maracatu, o rap e a rua, DJ e produtor local construiu em Mogi das Cruzes uma presença cultural em que memória, raiz e convivência passam a soar no mesmo compasso.
Nandes Castro construiu, em Mogi das Cruzes, uma trajetória que escapa às classificações rápidas. Em seu percurso, a música aparece como trabalho, claro, mas também como elo entre tempos, pessoas e camadas da cidade. O que ele faz não se limita à circulação artística. Seu caminho foi ganhando espessura como prática de ligação: entre repertórios, entre tradições, entre a experiência da rua e a permanência da memória.
Publicamente, Thiago Fernandes Castro circula por frentes que, vistas depressa, poderiam parecer paralelas: discotecagem, produção musical, maracatu, hip hop, beatmaking, pesquisa de repertório, presença em festas e cortejos, articulação de escutas brasileiras. Ele próprio organiza esse mapa com simplicidade ao dizer que se define, antes de tudo, como DJ, “por ser a frente que mais pratico”. A resposta tem precisão. Ela indica um centro real. Ao redor dele, as demais linguagens se movem com organicidade, sem disputa de protagonismo. O resultado não é um personagem montado. É uma presença reconhecível.
Olhar para esse percurso apenas como agenda artística seria pouco. O que Nandes foi construindo em Mogi passa por uma camada mais funda: a capacidade de fazer da música um campo de continuidade. Entre um set e um cortejo, entre o repertório guardado e a invenção cotidiana, forma-se uma prática que ajuda a cidade a sentir melhor aquilo que já possui. Há artistas que ocupam espaços. Há outros que ampliam a qualidade da escuta coletiva. Nandes pertence a essa segunda linhagem.
Uma geografia íntima da cultura
Toda trajetória cultural densa guarda uma geografia íntima. No caso de Nandes, Mogi das Cruzes está longe de funcionar como pano de fundo. Ela entra como matéria de formação.

Quando fala do que a cidade lhe deu, ele não recorre a generalidades afetivas. Lembra a família Veiga como referência de cultura independente e consciência política. Evoca a Congada de Santa Efigênia, o Samba do Herbert, o pintor Nerival Rodrigues, Enzo Ferrara e o escultor Maurício Chaer. A memória vem povoada por nomes, cenas e convivências.
Esse detalhe importa muito. Há lugares que apenas abrigam. Outros educam a sensibilidade. Ensinam o que merece atenção, abrem repertório, deixam uma marca silenciosa no modo como alguém passa a perceber o mundo. Mogi aparece, no relato de Nandes, justamente assim: como um espaço que lhe ofereceu experiência antes de lhe oferecer profissão. Seu vínculo com a cidade nasce menos do discurso identitário do que de uma familiaridade construída no convívio, na observação, na circulação entre festas, sons, imagens e saberes locais.
Talvez por isso seu pertencimento tenha espessura. Não se trata de elogio automático ao lugar de origem. Trata-se de reconhecer que a formação de um artista também acontece por impregnação. Uma cidade vai entrando na pessoa por ritmos, vozes, referências visuais, rodas, encontros e modos de estar. Com o tempo, esse acúmulo vira critério, vira escuta, vira escolha. Em Nandes, essa sedimentação aparece com clareza.
Quando a vocação ganha direção
Toda vida criativa conhece o momento em que afinidade deixa de ser impulso e pede forma. Com Nandes, esse processo se organiza em dois marcos. O primeiro veio em 2008, quando ele começou a aceitar a ideia de que poderia realmente ser DJ. O segundo, em 2016, quando uma mudança pessoal lhe deu mais foco e propósito sobre o que valia a pena sustentar.
A expressão usada por ele para nomear essa virada chama atenção pela honestidade: a retirada de uma “grande porção de covardia existencial”. A frase permanece porque toca um ponto humano que muitas biografias artísticas preferem contornar. Entre gostar de algo e se responsabilizar por isso existe um trabalho interno considerável. Em algum momento, a pessoa passa a gastar menos energia se desviando do próprio centro. O caminho, então, adquire consequência.
No percurso de Nandes, essa passagem ajuda a entender a solidez do que veio depois. Sua atuação não parece movida por impulso de ocasião, mas por uma relação amadurecida com o próprio ofício. Daí a impressão de coerência que seu trabalho transmite. Cada frente conversa com a outra porque todas nascem de uma decisão mais profunda de permanência.
O chamado do maracatu
O encontro com o maracatu de baque virado tem a simplicidade dos acontecimentos que depois revelam uma força estrutural. Ele voltava de uma intervenção artística em Suzano quando, ao descer de uma kombi numa praça de Mogi, encontrou um ensaio do Maracatu Boigy. Deram-lhe um instrumento. A partir daquela tarde, passou a frequentar os encontros. Pouco depois, surgiria o Suburbaque.
A cena é bonita porque mostra a cultura em seu estado mais vivo: alguém abre uma roda, outra
pessoa entra, uma linguagem encontra um corpo disponível. Nada ali tem a rigidez do destino anunciado. Há, antes, uma espécie de chamado concreto. Um gesto simples que reorganiza o percurso.
É nesse contexto que surge uma das frases mais reveladoras de toda a entrevista: “Foi Mogi quem me ofereceu o maracatu de baque virado.” Nela, a cidade deixa de ser apenas endereço e passa a ocupar o centro da experiência. Em vez do artista que leva algo ao território, aparece o território como agente de formação, como força que entrega linguagem, inicia percurso e ajuda a dar nome ao que ainda estava em estado de busca.
Também por isso essa aproximação com o maracatu ganha densidade particular. No Suburbaque e no Suburbloco, o cortejo é a face mais visível de uma construção mais ampla, ligada à valorização das manifestações nordestinas, à consciência racial, ao estudo das matrizes afro-brasileiras e à circulação pública dessa herança.
Aí reside um dos pontos mais fortes de sua trajetória: tradição, em seu trabalho, nunca entra como peça decorativa. Ela aparece como força viva, como transmissão, como presença que pede estudo, responsabilidade e corpo. A rua, nesse contexto, deixa de ser simples cenário. Vira espaço de encontro, de vibração compartilhada, de reaparição simbólica da cidade para si mesma.
O que a rua devolve
Ao falar do que muda quando uma manifestação ocupa a rua, Nandes é preciso: “Muda o acesso, a harmonia do ar livre, traz os artistas num contato mais direto com o público, no mesmo patamar.” Há uma teoria inteira nessa frase, mas sem qualquer peso artificial. O que ele nomeia é um deslocamento fundamental: a cultura, ao sair do espaço fechado, volta a circular no nível da convivência.

No cortejo, a experiência estética deixa de ser observada à distância. Ela se espalha. Atravessa a rotina, altera o ambiente, convida o corpo, produz participação sensível. O espaço urbano ganha outra textura. Durante algumas horas, a cidade deixa de ser apenas fluxo e função. Reencontra uma dimensão de praça, de presença mútua, de respiração coletiva.
Esse efeito ajuda a entender por que certas práticas produzem mais do que festa. Produzem aproximação. E aproximação, num tempo tão marcado pela dispersão, tem valor quase filosófico. Ela reintroduz a percepção de que viver em comum depende também de ritos, sons e experiências que recolocam as pessoas numa mesma frequência. O trabalho de Nandes toca esse ponto com naturalidade: ele atua justamente nesse campo em que a arte volta a ser forma de convivência.
Entre o beat e o baque
Uma das qualidades mais ricas de seu percurso está na maneira como ele atravessa linguagens sem transformá-las em compartimentos estanques. Hip hop, maracatu, vinil, brasilidades, produção musical: em sua prática, tudo isso aparece menos como coleção de etiquetas e mais como parentesco. Ao tentar explicar o que une essas frentes, ele escolhe uma imagem direta: “o fio do compasso 4×4”.
A partir daí, puxa o manguebeat, o tropicalismo, a mistura entre música local e música mundial, a relação entre rap e embolada. O raciocínio é musical, mas também cultural. Ele sugere uma ideia de Brasil fundada em trânsito, invenção e continuidade. Em vez de separar tradição e contemporaneidade como campos opostos, Nandes percebe uma conversa antiga entre ambos. É aí que sua noção de raiz ganha força.
Raiz, em seu trabalho, não serve para imobilizar. Serve para sustentar. Quem conhece o próprio chão consegue experimentar com liberdade. Mistura, nesse caso, deixa de soar como perda e passa a ser forma de vitalidade. O rap encontra ecos em tradições orais muito anteriores a ele. O maracatu segue pulsando quando alcança outros contextos. O vinil deixa de ser fetiche e vira ferramenta de pesquisa, memória e reapresentação.
Há uma dimensão filosófica importante nesse modo de operar. Cultura, aqui, não é acervo morto nem vitrine. É uma matéria em movimento, capaz de atravessar o tempo sem abrir mão de densidade. Nandes parece compreender isso por dentro. Sua trajetória sugere que identidade forte não se fecha; ela amadurece, escuta, incorpora e devolve.
A pesquisa como cuidado
Talvez a palavra mais reveladora que ele use para falar da discotecagem seja “pesquisa”. A pista existe, a festa existe, o prazer de tocar existe. Mas o gesto decisivo vem antes: escavar repertório, selecionar, recolocar em circulação, oferecer ao ouvido coletivo algo que carregue frescor e memória ao mesmo tempo. Nandes gosta de apresentar “novidades antigas”. A formulação é excelente porque condensa uma ética.
Trazer à tona uma “novidade antiga” é mexer com a percepção do tempo. É lembrar que o presente pode se renovar sem viver de descarte. O DJ, então, deixa de ser apenas quem conduz uma noite e se aproxima da figura de um mediador de escutas. Alguém que reorganiza a memória afetiva, reabre arquivos e mostra que dançar também pode ser uma maneira de reconhecer heranças.
Há generosidade nisso. Pesquisar para tocar pressupõe respeito pelo público e confiança na sua sensibilidade. Pressupõe também a ideia de que gosto se cultiva, se amplia, se refina. Em cidades como Mogi, esse tipo de atuação pesa ainda mais, porque formação de cena também depende de quem cria contexto, costura repertórios e aproxima mundos que raramente ocupam o mesmo espaço. Nesse sentido, a discotecagem de Nandes produz mais do que clima. Produz ligação.
Uma força de continuidade em Mogi
Quando olha para a cena independente de Mogi, Nandes reconhece a riqueza artística da cidade e celebra o surgimento de nomes com projeção mais ampla, como Júlia Costa. O comentário revela confiança num processo em amadurecimento. Cidades médias, tantas vezes lidas a partir do que lhes faltaria, guardam uma força cultural que nem sempre recebe a atenção merecida. Nelas, a persistência tem um papel formador. É ela que sustenta vínculos, amadurece linguagens e permite que a criação ganhe continuidade.
Figuras como Nandes se tornam valiosas justamente aí. Não por concentrarem tudo em si, mas porque ajudam a manter os fios ligados. Entre gerações, entre repertórios, entre festa e estudo, entre memória e invenção, entre território e imaginação pública. Sua importância vem dessa capacidade de dar espessura a um ambiente sem precisar transformá-lo em discurso grandioso.
Em seu caminho, cultura aparece como presença partilhada. Como prática que amplia a qualidade do convívio, afina sensibilidades e devolve complexidade à experiência urbana. Em tempos de dispersão, o que Nandes constrói recompõe continuidade. Reabre escutas, aproxima tradições, devolve espessura ao espaço comum.
Nandes Castro ocupa esse lugar sem alarde. Seu percurso mostra que uma cidade não se sustenta apenas por obras, rotinas e circulação. Ela depende também do que aprende a cultivar no campo do sensível: os ritmos que reconhece, as memórias que mantém em uso, os encontros que ainda consegue produzir. Quando a música assume essa densidade, deixa de ser trilha da vida coletiva e passa a participar da sua forma.
É aí que sua importância se fixa. Nandes não apenas atua em Mogi das Cruzes. Ele ajuda a manter aberta, dentro da cidade, uma zona de escuta, de vínculo e de elaboração comum. E talvez seja essa uma das tarefas mais altas da cultura: impedir que um lugar passe por si mesmo em silêncio.




