A balança ambiental brasileira mostrou sinais contrastantes no primeiro trimestre de 2026. Enquanto a Amazônia registrou redução nos alertas de desmatamento, o Cerrado manteve trajetória de alta, consolidando-se como a principal frente de pressão sobre a vegetação nativa no país.
Os dados são do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, divulgados em 10 de abril. O sistema funciona como um mecanismo de alerta em tempo quase real, indicando tendências de desmate, e não o cálculo consolidado anual.
Queda moderada na Amazônia
Entre janeiro e março, a Amazônia Legal registrou cerca de 399 km² sob alerta de desmatamento, uma queda aproximada de 7% em relação ao mesmo período de 2025. Trata-se do segundo menor índice da série histórica para o trimestre.
Especialistas atribuem o resultado a uma combinação de fatores, como o reforço das ações de fiscalização ambiental, o monitoramento remoto e a manutenção de operações de combate a ilícitos ambientais.
Além disso, o período chuvoso na região costuma dificultar o avanço do desmatamento, o que também influencia os números do início do ano.
Cerrado lidera pressão sobre vegetação
Na direção oposta, o Cerrado registrou cerca de 1.466 km² de áreas sob alerta, um aumento de aproximadamente 15% na comparação anual. O volume supera com folga o observado na Amazônia no mesmo período.
A maior parte da pressão se concentra na região do Matopiba, área que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e que se consolidou como a principal fronteira de expansão agropecuária do país.
Diferentemente da Amazônia, onde o desmatamento ilegal predomina, no Cerrado uma parcela significativa da supressão ocorre com autorizações legais emitidas em âmbito estadual, o que limita a atuação direta de órgãos federais.
Fenômeno de deslocamento preocupa
Pesquisadores apontam que o cenário reflete um fenômeno conhecido como “vazamento”, quando a pressão por abertura de novas áreas migra de regiões mais fiscalizadas para outras com regras mais permissivas ou menor controle.
Nesse contexto, a redução do desmatamento na Amazônia, embora relevante, não necessariamente representa diminuição global da pressão ambiental no país.
Desafio de política integrada
O Ministério do Meio Ambiente avalia medidas para intensificar a proteção do Cerrado, incluindo o fortalecimento do PPCerrado (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento no Cerrado), iniciativa voltada à redução da perda de vegetação no bioma.
Especialistas defendem maior coordenação entre União e estados para revisão de autorizações de desmate e ampliação de mecanismos de monitoramento, sob risco de impactos na biodiversidade e na segurança hídrica — já que o Cerrado abriga nascentes de importantes bacias hidrográficas do país.
