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Paternidade que floresce
Paternidade que floresce

Paternidade que floresce

Criação de grupos de homens apontam novo olhar sobre a experiência de ser pai e atualizam conceitos de masculinidade

Fiquei à espera, eu e o fotógrafo. Quinze minutos, nada. Trinta minutos, não chegaram. Mas apareceram. Eu duvidei. Sairiam os pais de suas casas, numa sexta-feira à noite, para um bate-papo e discussão sobre o significado da paternidade? 

Thiago Freitas, do Corpo Brinquedo. Foto: Marcelo Marsan

E foi o que aconteceu. Seis pais se disponibilizaram a participar de bate-papo e dinâmica para repensar o lugar de pai e rever seus conceitos sobre masculinidade, organizado por Thiago Freitas, criador do projeto Corpo Brinquedo, nesta última sexta-feira, dia 9.

Parece ser o começo de uma tendência, ou o início de uma revolução. A história de Thiago Freitas me tocou. 

Formado em curso de atores pela Universidade de São Paulo, Thiago projetou sua carreira, inicialmente, para ser ator. Mas o nascimento de Violeta, sua filha, o fez repensar profundamente sobre a vida, impactando diretamente sobre os caminhos da sua carreira. 

“Percebi que estava fazendo teatro mais por ego ou vaidade, e que teria que aparecer na televisão um dia para aí ser conhecido”, conta ele. Foi então que seu olhar começou a ser orientado para a paternidade como projeto de vida e uma possível profissão. 

Tudo começou por intuição. Durante o parto de Violeta, a parteira explicou a ele que estabeleceria uma relação de confiança com sua filha pelo toque. “Sem ter tanta consciência, eu fui o ´doulo´”, conta Thiago, referindo-se à profissão de doula que tem voltado à cena com um olhar mais humano para o parto.

Doulas são as mulheres que dão suporte físico e emocional a outras mulheres – antes, durante e após o parto.

Atividades no Projeto Corpo Brinquedo. Fotos: Marcelo Marsan.

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Após esta experiência, Thiago fez curso de doulo, um lugar considerado feminino – “com muito respeito pelas mulheres”, segundo ele, e passou a estudar incansavelmente, há quatro anos, sobre tudo o que envolve a paternidade, desde psicologia, pedagogia, ancestralidade, constelação familiar, anatomia, educação física, corpo. 

“Sou um autodidata, porque se fosse estudar tudo o que precisava para trabalhar com a paternidade, eu não teria tempo de vida”, brinca ele. 

Uma nova profissão? “Gosto de pensar dessa maneira. Hoje eu chamo de Corpo Brinquedo”.

Grupos masculinos

Encontrei outra iniciativa que envolve esta temática e conversei com Tiago Koch, criador do Projeto Homem Paterno, que existe desde o início do ano passado. Assim como Fritas, Koch também acredita nos grupos masculinos como um espaço seguro e ético para que os homens possam falar de suas vulnerabilidades, angústias, vivências positivas, além de trocarem experiências sobre o lugar do pai durante esta nova experiência da vida.

Foto: Clara Fernandes
Tiago Koch, criador do Homem Paterno. Foto: Ian Leite

Ele conta que seu projeto nasceu de uma necessidade pessoal vivenciada antes da gestação de sua filha devido a uma completa falta de informação para o homem no que se refere ao período da gestação e do puerpério – período da mulher para se recompor da gestação, que pode durar até anos, de acordo com cada mulher. 

“Sempre que fui buscar informação, nada encontrei de conteúdo sobre o lugar do homem diante dos processos e dos novos desafios de vida, um total desconhecimento sobre o que acontece com a mulher em relação às transformações físicas, biológicas e emocionais, e o que fazer e o que não fazer durante o parto”, recorda. 

Segundo ele, esta falta de informação faz com que os homens não consigam se tornar empáticos por falta de referências de homens que encarem e vivenciem a paternidade de uma forma mais profunda. 

Assim foi criado o Projeto Homem Paterno, que forma grupos de discussão por diversos ângulos sobre o tema paternidade com eventos em todo o Brasil. “Vamos falar de coisas profundas, vamos mostrar o que há embaixo das nossas máscaras que a gente fica vestindo no dia a dia”.

Para Koch, mais que uma tendência, estes grupos apontam um movimento, ainda pequeno, de grupos de homens de todo o Brasil falando não só sobre paternidade mas da masculinidade de uma forma geral. 

“Vejo que existe um movimento não organizado e talvez não estruturado, que pode ter alguns recortes, como masculinidades negras ou pais solos, que indica um movimento de transformação real. Assim como o movimento feminista, existem estes movimentos de forças propulsoras de transformação do masculino”, acrescenta.  

Freitas, do Corpo Brinquedo, concorda que o movimento ainda é pequeno, mas crescente. Seu projeto, que enfatiza a questão corporal, trabalha a vivência de paternidade com algumas ramificações, com atendimentos individuais para mães e pais durante a gestação, no parto ou até mesmo com o acompanhamento do desenvolvimento de crianças de 0 a 7 anos, além dos grupos masculinos, realizados em São Paulo no Espaço Cacatu, na Vila Madalena.

Já com os grupos paternos, além dos bate-papos, Freitas gosta de trabalhar atividades e propor algumas brincadeiras para que os homens se sintam mais à vontade e possam repensar padrões machistas ou masculinos.

Ele propõe abraços entre os homens, beijos, brincadeiras como “borboletas no chão” e até sugerem que os homens pratiquem ginásticas consideradas femininas. 

Algumas perguntas inesperadas para eles como por exemplo: “Você se considera uma pessoa sensível? Você se acha mais homem do que eu ? Você tem facilidade de chorar? Você sabe o preço de um absorvente? Sabe o que é um coletor menstrual?”.

Perguntei para alguns pais o que acharam da vivência, muitos ali, participando de algo do tipo pela primeira vez. 

Marcus Pianger, pai, gostou da experiência. “É uma ótima oportunidade para refletirmos coisas que não pensamos no nosso dia a dia e tirarmos a máscara do pai machista de uma forma não convencional”, conta-nos, com sorriso no rosto de quem acabou de ter um abraço coletivo masculino.


Páginas de Instagram dos Projetos:
@corpobrinquedo
@homempaterno 

CC BY 4.0 Paternidade que floresce by Mariana Vilela is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Jornalista humanista, comunicadora e amante das artes. Meus textos em mariana.journoportfolio.com Instagram: @jornalistahumanista

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