Antes de tomar o primeiro gole de água pela manhã, o ser humano já carrega plástico dentro de si. É o que uma crescente e consistente base de pesquisas científicas vem demonstrando nos últimos anos, com descobertas que passaram a preocupar seriamente a comunidade médica global. Microplásticos foram detectados no sangue, nos pulmões, no fígado, no cérebro, no leite materno, no cordão umbilical e até nas placas que entopem as artérias do coração. A água que bebemos todos os dias é uma das principais portas de entrada dessas partículas no organismo humano, e os efeitos dessa contaminação silenciosa começam a ganhar contornos cada vez mais concretos.
O que são e como chegam ao corpo
Microplásticos são fragmentos de plástico com até 5 milímetros de tamanho. Eles se originam de duas formas: os primários, fabricados intencionalmente em tamanho reduzido para uso em cosméticos e produtos de higiene, e os secundários, gerados pela fragmentação progressiva de embalagens, garrafas, sacolas e tecidos sintéticos sob ação do sol, do calor e do desgaste mecânico. Uma vez no ambiente, essas partículas não desaparecem. Elas se acumulam em oceanos, rios, solos e, inevitavelmente, na água que abastece torneiras e é engarrafada para consumo.
Partículas como poliestireno, polipropileno e polietileno impactam a saúde humana causando inflamação nos sistemas respiratório e gastrointestinal, comprometendo a função imune e aumentando o risco de doenças cardiovasculares e neurotóxicas. A exposição acontece por três rotas principais: ingestão de alimentos e líquidos contaminados, inalação de partículas suspensas no ar e, em menor grau, absorção pela pele. Estima-se que pessoas inalam 68.000 partículas de microplástico por dia, e estudos mostram que essas partículas já foram detectadas em sangue, pulmões, fígado e até articulações dos membros inferiores.
Dentro das artérias: o estudo que mudou o debate
O ponto de virada na pesquisa sobre microplásticos e saúde veio em março de 2024, com a publicação de um estudo no New England Journal of Medicine, uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo. Pesquisadores conduziram um estudo prospectivo multicêntrico com pacientes submetidos a endarterectomia de carótida para tratamento de doença arterial carotídea assintomática. As placas removidas foram analisadas para a presença de micro e nanoplásticos por meio de pirólise, cromatografia gasosa e espectrometria de massa, além de microscopia eletrônica.
O resultado foi perturbador. Após um acompanhamento médio de 34 meses, pacientes em cujas placas foram detectados micro e nanoplásticos apresentaram risco 4,5 vezes maior de morte por qualquer causa, infarto ou acidente vascular cerebral em comparação aos pacientes cujas placas não continham essas substâncias. Mais de metade dos participantes tinha plástico nas artérias: entre os 257 pacientes com acompanhamento completo, 58% apresentaram micro e nanoplásticos em suas placas ateroscleróticas.
Os pesquisadores reconhecem que o estudo não prova causalidade direta. Mas o peso dos números é difícil de ignorar. Os autores ressaltaram que o trabalho não comprova definitivamente que os plásticos causaram maior risco de problemas cardiovasculares, mas identificou uma associação importante que precisa ser investigada em estudos futuros.
No cérebro, nos rins e além
O coração não é o único órgão sob investigação. Nanoplásticos menores que 1 micrômetro preocupam mais os pesquisadores porque são capazes de penetrar células. Usando um modelo de revestimento intestinal humano, uma equipe liderada por Philip Demokritou, diretor do Laboratório de Nanotoxicologia Ambiental da Harvard Chan School, descobriu que nanoplásticos conseguem entrar nas células por dois mecanismos diferentes e até alcançar seus núcleos.
No campo neurológico, pesquisas mostram que microplásticos na corrente sanguínea podem induzir trombose cerebral ao causar obstrução celular e levar a comportamentos neurotóxicos. Estudos em modelos animais, publicados na revista Science Advances em 2025, confirmaram esse mecanismo, levantando hipóteses sobre conexões futuras com doenças como Alzheimer e Parkinson.
Para as gerações ainda em formação, o quadro é ainda mais alarmante. Evidências recentes indicam que microplásticos menores que 10 micrômetros são capazes de atravessar a barreira placentária, expondo o feto durante a gestação. Um estudo identificou 12 fragmentos de microplástico em quatro de seis placentas humanas analisadas, presentes tanto no lado fetal quanto no materno.
Os mecanismos de dano
A revisão publicada em 2025 no periódico Frontiers in Public Health, conduzida por Zhang, Yu, Wang e Yang, integra achados recentes sobre as fontes, classificação e vias de entrada dos microplásticos no organismo humano, destacando sua toxicidade celular e os riscos sistêmicos à saúde. Os mecanismos pelos quais essas partículas induzem respostas inflamatórias, estresse oxidativo e dano celular já estão mapeados e relacionados a diversas doenças.
Evidências crescentes sugerem que microplásticos levam a distúrbios metabólicos, desequilíbrio da microbiota intestinal e respostas inflamatórias no organismo humano. Estudos experimentais e epidemiológicos associam a exposição a microplásticos a um risco aumentado de doenças agudas e crônicas, incluindo infertilidade, doença inflamatória intestinal, Parkinson e Alzheimer.
A ausência de resposta regulatória
Enquanto a ciência acumula evidências, a regulação patina. Novos métodos analíticos desenvolvidos recentemente permitem, pela primeira vez, quantificar microplásticos de forma confiável e reproduzível em vários tecidos humanos, incluindo tecidos complexos. Uma relação causal entre a ingestão de microplásticos e insuficiência renal já foi demonstrada, e evidências de relações causais com outras doenças devem seguir.
No entanto, padrões globais ainda estão longe de existir. A Organização Mundial da Saúde alertou, em relatório de 2022, que as tecnologias disponíveis ainda não permitem mensurar a exposição populacional a microplásticos nem determinar qual proporção dessas partículas permanece no organismo humano. No Brasil, não há norma que estabeleça limites ou metodologias para detectar microplásticos em água potável.
O que fazer agora
A ciência ainda não tem respostas definitivas sobre todos os efeitos de longo prazo. Mas o acúmulo de evidências já é suficiente para orientar escolhas. Preferir água filtrada por sistemas de osmose reversa a engarrafada, evitar aquecer alimentos em recipientes plásticos, reduzir o consumo de ultraprocessados e optar por tecidos naturais são medidas que ajudam a diminuir a exposição individual. No plano coletivo, a pressão por regulação se impõe como urgência.
O plástico que está dentro do corpo humano não chegou de uma vez. Ele foi absorvido ao longo de décadas, gota a gota, respiração a respiração, refeição a refeição. E, enquanto a indústria global produz mais de 400 milhões de toneladas de plástico por ano, com projeção de dobrar esse volume até 2040, o corpo humano continua acumulando, aquilo que o mundo não sabe descartar e utilizar de formas corretas.
Referências (Exibir todas)
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ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Microplastics in drinking-water. Genebra: OMS, 2022.
