O Brasil possui a maior reserva de água doce superficial do planeta. Tem rios que cruzam continentes, aquíferos que abastecem países inteiros e uma costa banhada por dois oceanos. E, mesmo assim, em 2025, mais de 33 milhões de brasileiros não têm acesso a água potável em casa. Outros 90 milhões vivem sem coleta de esgoto. Não é escassez de água o que explica esse número. É escassez de vontade política, de investimento e de prioridade.
O retrato que não muda
Os dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, o SINISA, referentes ao ano-base 2023 e publicados em 2025, são contundentes. A falta de acesso à água potável afeta 16,9% dos brasileiros. Outros 44,8% não possuem coleta de esgoto. Apenas 51,8% do esgoto gerado no país é efetivamente tratado, pouco mais da metade. E 39,5% da água potável que já foi tratada e está pronta para consumo se perde antes de chegar às residências, desperdiçada em tubulações defasadas e sem manutenção.
O Ranking do Saneamento 2025, produzido pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a consultoria GO Associados, avaliou os 100 municípios mais populosos do país com base nesses indicadores. Campinas ficou em primeiro lugar. Porto Velho, Macapá e Santarém ocuparam as últimas posições. Das 27 capitais brasileiras, apenas sete possuem ao menos 99% de abastecimento total de água. Quatro capitais trataram menos de 20% do esgoto coletado em 2023: Porto Velho tratou 12,18%, Macapá 14,42%, São Luís 15,89% e Teresina 19,19%.
A conta da estagnação
Cinco anos após a aprovação do Novo Marco Legal do Saneamento Básico, o estudo divulgado pelo Instituto Trata Brasil em agosto de 2025 concluiu que o país não apresentou evolução significativa nos indicadores. O acesso à coleta de esgoto subiu de 53,2% para 55,2% no período, um acréscimo de apenas 2 pontos percentuais. O tratamento de esgoto passou de 46,3% para 51,8%. O Marco Legal, aprovado em 2020, estabelece que 99% da população deve ter água potável e 90% deve ter coleta e tratamento de esgoto até 2033. Faltam oito anos. O ritmo atual não fecha essa conta.
Para cumprir a meta, o Plano Nacional de Saneamento Básico estima que seriam necessários cerca de R$ 511 bilhões, a preços de 2021. Descontado o que já foi investido e atualizado o valor para 2023, restam R$ 454,1 bilhões a serem aplicados, o que exigiria um aporte de R$ 45,1 bilhões por ano até 2033. Em 2024, o total investido foi de R$ 29,13 bilhões, menos de dois terços do necessário. A diretora-presidente da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, Veronica Sanchez da Cruz Rios, sintetizou a situação em audiência no Senado Federal em setembro de 2025: o Brasil precisaria de entre R$ 700 bilhões e R$ 900 bilhões para universalizar o saneamento, e está muito atrasado.
Quando a água adoece e mata
A consequência mais imediata da falta de saneamento se mede em corpos. Em 2024, o Ministério da Saúde registrou 344,4 mil internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado no Brasil, segundo estudo do Instituto Trata Brasil em parceria com a EX Ante Consultoria. A taxa de internações entre crianças de 0 a 4 anos chegou a 53,777 casos a cada dez mil crianças, o grupo mais vulnerável de todos.
As doenças que esse número carrega têm nome: diarreia, hepatite A, leptospirose, parasitoses intestinais, febre tifoide. São doenças evitáveis, cujo vetor principal é a água contaminada e o esgoto a céu aberto. A taxa de mortalidade por essas doenças entre populações indígenas alcança 21 casos a cada 100 mil pessoas, evidenciando que a crise do saneamento reproduz e aprofunda as desigualdades raciais do país. A pesquisa da Revista Brasileira de Estudos Regionais e Urbanos, publicada em 2025, confirmou o que décadas de epidemiologia já indicavam: o acesso inadequado ao saneamento impacta diretamente a taxa de mortalidade infantil, com efeito de transbordamento entre municípios vizinhos, ou seja, a precariedade em um município contamina os indicadores dos que estão ao redor.
A desigualdade que o mapa revela
As regiões Norte e Nordeste concentram os piores indicadores, numa contradição geográfica que choca: são as áreas com maior disponibilidade hídrica do país e, ao mesmo tempo, as que menos têm acesso a água tratada e esgoto coletado. O investimento médio anual em saneamento no Norte é de R$ 66,52 por habitante e no Nordeste de R$ 87,21, segundo dados do SINISA de 2023. No Sudeste, o valor é de R$ 171,49 por habitante, mais do dobro. O Plano Nacional de Saneamento Básico estabelece que seria necessário investir R$ 223,82 por habitante ao ano para cumprir as metas. Nenhuma região do Brasil chega a esse patamar.
Há 363 municípios com contratos irregulares em relação à prestação dos serviços de saneamento, segundo o estudo do Instituto Trata Brasil. A maioria está no Norte e no Nordeste, e são exatamente essas localidades que enfrentarão os maiores obstáculos para alcançar a universalização. Muitas delas sequer têm capacidade técnica instalada para licitar, contratar e fiscalizar obras de infraestrutura hídrica.
O prazo que pode escorregar
Em meio à estagnação dos indicadores, ganhou força no Congresso Nacional, em 2025, a discussão sobre adiar a meta de universalização de 2033 para 2040. A proposta divide o setor. Para os que defendem o adiamento, o prazo original é tecnicamente inviável dado o ritmo de obras e licenciamentos. Para os que se opõem, adiar é aceitar que mais sete anos de doenças evitáveis, mortes prematuras e internações desnecessárias se tornem política oficial do Estado.
O debate é legítimo em seus aspectos técnicos. Obras de infraestrutura hídrica levam anos entre projeto, licenciamento e execução. Mas os números colocam o dilema em perspectiva: cada ano sem universalização representa dezenas de milhares de internações e milhares de mortes que não precisariam acontecer. A redução de casos registrada entre 2008 e 2024, de 615 mil internações para 344 mil, demonstra que o avanço do saneamento salva vidas em escala mensurável. O ritmo, porém, precisa ser muito maior.
O paradoxo de uma potência hídrica
O Brasil exporta água embutida em soja, carne e minério para o mundo inteiro. Sedia conferências internacionais sobre clima e recursos hídricos. Abriga a maior floresta tropical do planeta, responsável por regular o ciclo hidrológico de boa parte do continente sul-americano. E ainda não conseguiu garantir que todos os seus cidadãos tenham água limpa na torneira e esgoto na tubulação.
A universalização do saneamento básico não é obra faraônica nem projeto de futuro distante. É uma dívida com 33 milhões de pessoas que acordam todos os dias sem acesso ao mais elementar dos direitos. E cada internação evitável, cada criança que adoece por beber água contaminada, cada morte por doença que o século XIX já sabia como prevenir é a evidência concreta de que o Brasil ainda não decidiu, de verdade, que água limpa é para todos.
Referências (Exibir Todas)
INSTITUTO TRATA BRASIL; GO ASSOCIADOS. Ranking do Saneamento 2025. São Paulo: ITB, agosto de 2025. Disponível em: https://tratabrasil.org.br/ranking-do-saneamento-2025/
INSTITUTO TRATA BRASIL. Avanços do Marco Legal do Saneamento Básico no Brasil. São Paulo: ITB, agosto de 2025. Agência Brasil, 19 ago. 2025.
INSTITUTO TRATA BRASIL; EX ANTE CONSULTORIA. Saneamento é saúde: como a falta de acesso à infraestrutura básica impacta na incidência de doenças (DRSAI). São Paulo: ITB, março de 2025.
MINISTÉRIO DAS CIDADES. Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), ano-base 2023. Brasília: Ministério das Cidades, 2025.
SENADO FEDERAL. Audiência Pública na Comissão de Desenvolvimento Regional: saneamento básico e metas de universalização. Brasília: Senado, setembro de 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/09/04/saneamento-avanca-com-marco-legal-mas-investimentos-ainda-sao-insuficientes
SANTOS, A. M. A. et al. Saneamento Básico e Mortalidade Infantil: Uma análise via painel espacial para os municípios brasileiros. Revista Brasileira de Estudos Regionais e Urbanos, v. 16, n. 1, p. 29-56, 2023. DOI: 10.54766/rberu.v16i1.804
BRASIL. Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB). Brasília: Ministério das Cidades, 2022.
AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2025. Brasília: ANA, março de 2026.
