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A água redesenha o mapa do poder
Photo Credit To MODIS Land Rapid Response Team/NASA GSFC - Wikimedia Commons

A Terra é coberta por água em 71% de sua superfície. Desse total, apenas 3% é doce, e menos de 1% está acessível para consumo humano. Esse número, que já era pequeno, está encolhendo. A ciência publicou nos últimos dois anos um conjunto de estudos que, somados, apontam para o mesmo diagnóstico: o mundo entrou em uma era de falência hídrica, e as décadas que separam o presente de 2050 serão decisivas para definir quem terá acesso à água e quem não terá.

O tamanho do problema

Atualmente, cerca de 4 bilhões de pessoas enfrentam escassez severa de água ao menos um mês por ano, segundo a ONU. Um estudo publicado na revista Nature Geoscience em janeiro de 2026, usando modelos de aprendizado de máquina aplicados a décadas de dados históricos e projeções de desenvolvimento socioeconômico, calculou que até 2050 esse número pode chegar a 6,5 bilhões de pessoas sob escassez severa em um cenário de fragmentação geopolítica e desigualdade crescente. Até 2100, 62% da população global poderia estar nessa condição.

Marisol Grandon/Department for International Development, via Wikimedia Commons (imagem convertida para PB; CC BY 2.0)
A procura por água em um leito seco no Quênia expõe a face mais concreta da crise hídrica: quando o colapso ambiental chega primeiro aos mais vulneráveis. FOTO: Marisol Grandon/Department for International Development (Wikimedia Commons – CC BY 2.0)

A demanda global por água deve crescer entre 20% e 30% até 2050, chegando a 6 mil km³ por ano, segundo projeções do Relatório Mundial de Desenvolvimento da Água da ONU. A agricultura, que já consome 70% de toda a água utilizada no planeta, vai demandar 60% mais alimentos para alimentar uma população que deve oscilar entre 9,4 e 10,2 bilhões de pessoas. A equação não fecha.

Um estudo publicado na revista Nature Communications em setembro de 2025 mapeou o que os pesquisadores chamaram de “Dia Zero da Seca”, o ponto em que a demanda por água supera completamente a oferta disponível. Usando simulações climáticas probabilísticas e análise de compostos extremos hidrológicos, o trabalho concluiu que eventos desse tipo podem emergir já na década de 2030 em diversas regiões, incluindo o Mediterrâneo, o sul da África e partes da América do Norte, com frequência superior à capacidade de recuperação dos sistemas hídricos locais.

O volume de conflitos relacionados à água cresceu 20% em 2024 em relação a 2023, segundo o banco de dados do Pacific Institute, organização californiana que monitora disputas hídricas globais há décadas. Em 2022 e no primeiro semestre de 2023, foram registrados 344 conflitos relacionados à água no mundo, desde disputas regionais sobre direitos de acesso até ataques deliberados a infraestrutura hídrica.

A água deixou de ser apenas um recurso e passou a funcionar como instrumento de poder geopolítico. A China construiu 11 grandes barragens no curso superior do rio Mekong, controlando o fluxo de água que abastece 60 milhões de pessoas no Laos, Tailândia, Camboja e Vietnã. Dados de satélite revelaram que, durante a seca severa de 2019 na bacia inferior do rio, as barragens chinesas bloquearam o fluxo da parte superior durante o período de chuvas, aprofundando a escassez em países a jusante.

Na África, a Grande Barragem do Renascimento Etíope, construída no Rio Nilo Azul, acumula tensão com o Egito há mais de uma década. O Egito depende do Nilo para 97% de seus recursos hídricos e chegou a declarar que qualquer redução significativa no fluxo seria tratada como ato de guerra. A barragem atingiu 1.550 MW de capacidade de geração em 2024 e segue sem um acordo formal com os países a jusante.

Na Ásia do Sul, em maio de 2025, a Índia suspendeu o Tratado das Águas do Indo, firmado em 1960 com o Paquistão. O pacote, considerado um dos acordos de compartilhamento de água mais duradouros da história, regula o fluxo de uma bacia hidrográfica que sustenta a agricultura e o abastecimento de cerca de 300 milhões de paquistaneses. Islamabad chamou a suspensão de potencial ato de guerra. O Banco Mundial, mediador histórico do tratado, não apresentou solução.

Um continente que seca

Um relatório divulgado no Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro de 2025, concluiu que muitos sistemas hidrológicos do mundo chegaram a um ponto sem retorno, com esgotamento irreversível de lagos, rios e aquíferos após décadas de superexploração. O fenômeno foi batizado pelos pesquisadores de seca antropogênica: uma forma de escassez provocada não apenas pela redução das chuvas, mas pelo desmatamento, degradação do solo e uso insustentável da terra, que comprometem a capacidade dos ecossistemas de reter e filtrar a água disponível.

Na Europa, o rio Danúbio atingiu seu nível mais baixo já registrado em 2024. Na Sérvia, moradores de Novi Sad cruzaram o rio a pé, algo que nenhum residente mais antigo havia visto antes. Destroços de navios de guerra alemães da Segunda Guerra Mundial emergiram do fundo do rio, alguns ainda com munição. O rio Reno, que transporta 200 milhões de toneladas de carga por ano, teve sua queda no nível em 2018 associada a uma retração de 1,5% na produção industrial alemã e de 0,4% no PIB do país naquele ano. Com secas mais frequentes projetadas para as próximas décadas, o impacto econômico deve se tornar estrutural.

Brasil: potência hídrica em crise

O Brasil detém cerca de 12% de toda a água doce superficial do planeta e abriga dois dos maiores aquíferos do mundo. O Aquífero Guarani, com 1,19 milhão de km², se estende por oito estados brasileiros e três países vizinhos e abastece 90 milhões de pessoas. O Aquífero Alter do Chão, sob a Amazônia, pode conter mais de 80 mil km³ de água doce, volume potencialmente superior ao do próprio Guarani. Esses ativos colocam o Brasil em uma posição estratégica única no planeta. E também tornam o descaso com esse patrimônio ainda mais grave.

Uma pesquisa do Instituto de Geociências da Unesp de Rio Claro, com apoio da Fapesp, concluiu que a reposição do Aquífero Guarani está abaixo do necessário para manter o volume disponível. O rebaixamento dos níveis chega a até 100 metros em alguns pontos, e o fenômeno é contínuo e progressivo. A superexploração, combinada ao aumento da evaporação causado pelo aquecimento e à impermeabilização do solo urbano nas zonas de recarga, compromete a recuperação natural do sistema.

Em agosto de 2025, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico declarou situação crítica de escassez hídrica nas bacias dos rios Purus, Juruá, Acre e Iaco, nos estados do Acre e do Amazonas. Era o segundo ano consecutivo de chuvas abaixo da média e de vazões muito inferiores ao esperado. No Pantanal, o processo de aridização avança em ritmo inédito. No Nordeste, a desertificação expande seu território. No Sul, as enchentes recordes do Rio Grande do Sul em 2024 custaram vidas e bilhões, e a recorrência de eventos extremos já é tratada como nova normalidade pela meteorologia.

Um levantamento publicado pelo Instituto Trata Brasil em outubro de 2025 estimou que a demanda por água no país deve crescer mais de 25% até 2050. O consumo médio diário por habitante deve passar de 175 litros em 2023 para cerca de 205 litros em 2033. Se toda a população brasileira tivesse acesso ao abastecimento hoje, o volume necessário já seria 30% superior ao consumo atual. E o Brasil ainda não universalizou o saneamento básico.

O que a ciência diz que ainda pode ser feito

O cenário é grave, mas os pesquisadores não abandonaram as soluções. A Universidade de Utrecht publicou em maio de 2024, na revista Nature Climate Change, uma análise abrangente que mapeou tanto a intensificação da escassez quanto os caminhos de reversão. O trabalho aponta que dois terços das cidades com escassez hídrica projetada para 2050 poderiam resolver o problema com investimento em infraestrutura, desde que os custos ambientais das soluções sejam calculados e gerenciados.

A dessalinização avança como opção em regiões litorâneas, com Israel produzindo hoje cerca de 60% de sua água potável por esse processo. O reuso de água tratada de esgotos, economicamente viável e tecnicamente consolidado, ainda é marginal na maioria dos países em desenvolvimento. A restauração de ecossistemas hídricos como matas ciliares, zonas úmidas e nascentes está documentada como a intervenção de maior custo-benefício para garantir segurança hídrica de longo prazo.

O estudo da Nature Geoscience de 2026 é o mais direto nas conclusões: a desigualdade econômica é o principal amplificador da escassez hídrica. Países com menor renda per capita, menor acesso à tecnologia e maior vulnerabilidade climática enfrentarão impactos desproporcionalmente maiores. A gestão equitativa da água, e não apenas a abundância física do recurso, é o que determinará quem atravessa as próximas décadas com segurança. O Brasil, com toda a sua riqueza hídrica, ainda precisa escolher de que lado quer estar nessa conta.

Referências (Exibir Todas)

SHENG, J. et al. Global water security threatened by rising inequality. Nature Geoscience, janeiro de 2026. DOI: 10.1038/s41561-025-01905-y

SATOH, Y. et al. The first emergence of unprecedented global water scarcity in the Anthropocene. Nature Communications, v. 16, art. 8281, setembro de 2025. DOI: 10.1038/s41467-025-63784-6

JONES, E. R. et al. Current and future global water scarcity intensifies when accounting for surface water quality. Nature Climate Change, maio de 2024. DOI: 10.1038/s41558-024-02007-0

VÖRÖSMARTY, C. J. et al. Reassessing the projections of the World Water Development Report. npj Clean Water, 2019. DOI: 10.1038/s41545-019-0039-9

LIU, J. et al. Future global urban water scarcity and potential solutions. Nature Communications, 2021. DOI: 10.1038/s41467-021-25026-3

GLEICK, P. H. Water Conflicts Surge Globally. New Security Beat, Pacific Institute, dezembro de 2025.

GASTMANS, D. et al. Reposição de estoque do Aquífero Guarani é insuficiente. Instituto de Geociências, Unesp Rio Claro, com apoio da Fapesp. Publicação referenciada pela Agência Brasil, outubro de 2024.

INSTITUTO TRATA BRASIL. Projeções de consumo hídrico no Brasil até 2050. São Paulo: Instituto Trata Brasil, outubro de 2025.

AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Declaração de situação crítica de escassez hídrica nas bacias dos rios Purus, Juruá, Acre e Iaco. Brasília: ANA, agosto de 2025.

UNESCO. UN World Water Development Report 2024. Paris: UNESCO, 2024.

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Rafael é jornalista de dados, escrevendo sobre memória, povos e cidades. Produz reportagens especiais de interesse público com foco desigualdades socioambientais e territoriais.

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