Há pouco mais de trinta anos, água era bem público em quase todo o planeta. Hoje, fundos de investimento globais, multinacionais do setor de saneamento e gigantes do mercado financeiro compram, vendem e negociam direitos sobre o recurso mais essencial à vida humana com a mesma lógica com que operam ações em bolsa. A questão que divide governos, cientistas e comunidades ao redor do mundo é uma só: o que acontece quando a água deixa de ser um direito e passa a ser um produto?
Um mercado que não para de crescer
A privatização dos serviços de água ganhou impulso a partir dos anos 1980, impulsionada pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional como condição para financiamentos a países em desenvolvimento. O argumento era o da eficiência: empresas privadas gerenciariam melhor os sistemas do que o Estado. Três décadas depois, o balanço é ambíguo. Cerca de 90% dos estoques globais de água doce ainda permanecem sob controle público, mas a pressão pela privatização cresceu junto com a escassez.
Nos Estados Unidos, a CME Group lançou em 2020 contratos futuros de água com base no Nasdaq Veles California Water Index, transformando oficialmente o recurso em ativo financeiro negociável. O índice acompanha o preço de mercado dos direitos de água na Califórnia, estado que convive com secas recorrentes e onde a água já vale mais por metro cúbico do que em qualquer outra região do país. O movimento gerou reações em todo o mundo e consolidou a percepção de que a financeirização da água deixou de ser hipótese para se tornar realidade operacional.
O fracasso que a história registra
A experiência internacional acumulou evidências suficientes para tornar o debate menos abstrato. Em Cochabamba, na Bolívia, a privatização do sistema de água em 2000 triplicou as tarifas em poucos meses, provocando protestos que deixaram mortos e feridos e terminaram com a rescisão do contrato com a multinacional Bechtel. Em Manila, nas Filipinas, a concessão privada fracassou na entrega de infraestrutura prometida. Em Dar es Salaam, na Tanzânia, o contrato foi encerrado após denúncias de deterioração do serviço. Na França, Paris remunicipaliza a água em 2010; Berlim faz o mesmo em 2014; Barcelona em 2014. Um relatório do Instituto Transnacional, com sede em Amsterdã, contabilizou 340 casos de reestatização de serviços de água e esgoto em todo o mundo entre 2000 e 2023, abrangendo mais de 100 milhões de pessoas em 37 países.
O padrão que explica esses movimentos de reversão é consistente: após a privatização, tarifas sobem, investimentos em infraestrutura ficam abaixo do prometido e populações de baixa renda perdem acesso ao serviço. O Banco Mundial registrou taxa de fracasso de 34% nos contratos privados de água e esgoto entre 2000 e 2010, número que supera em larga margem as taxas de insucesso nos setores de telecomunicações, energia e transporte no mesmo período.
Chile: o alerta
O caso mais radical de privatização da água no mundo é o do Chile, onde o modelo foi implantado nos anos 1980 durante a ditadura de Augusto Pinochet. O país criou um mercado em que direitos de água podem ser comprados, vendidos e alugados sem intervenção estatal. O resultado foi uma concentração progressiva: pequenos agricultores e comunidades indígenas perderam acesso a fontes históricas, enquanto grandes empresas agrícolas e mineradoras acumularam direitos de uso. A escassez hídrica que afeta o Chile hoje é frequentemente apontada por pesquisadores como consequência parcial desse modelo. Em 2022, a nova Constituição chilena tentou reverter o sistema, mas o texto foi rejeitado em referendo. O debate segue aberto.
A onda chegou no Brasil
O Brasil não ficou de fora da tendência global. O Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, abriu caminho para que estados e municípios entregassem seus sistemas de água e esgoto a operadores privados. Os dois maiores movimentos ocorreram no Rio de Janeiro e em São Paulo.
No Rio, o leilão da Cedae em 2021 rendeu R$ 22,7 bilhões em outorgas ao governo estadual, com compromisso de R$ 30 bilhões em investimentos privados ao longo de contratos de 35 anos. Quatro anos depois, a conta de água que custava R$ 62,40 em 2020 passou para R$ 91,50 em 2024, alta de 46,6%. O Tribunal de Contas do Estado concluiu que menos de 30% dos recursos destinados a saneamento, educação e saúde haviam sido efetivamente aplicados até 2024. Nas favelas do Complexo do Alemão, Rocinha e Maré, moradores seguem relatando torneiras secas e esgoto a céu aberto.
Em São Paulo, a privatização da Sabesp, maior empresa de saneamento da América Latina, foi concluída em julho de 2024. O estado vendeu 32% das ações por R$ 14,7 bilhões. A Equatorial Energia, controlada pelos fundos Opportunity, Atmos e Capital World, adquiriu 15% das ações por R$ 6,9 bilhões, tornando-se acionista de referência. Outros 17,3% foram vendidos a cerca de 3 mil fundos e investidores por R$ 67,00 por ação, quando a cotação de mercado no mesmo dia era de R$ 87,00, uma diferença de quase 30%. Um estudo do núcleo de pesquisa Ecopol, da UniRio, identificou ainda que o Fundo Soberano de Cingapura é acionista relevante da Equatorial, que por sua vez tem a BlackRock como outro grande cotista, revelando a teia de capital global que passou a controlar o abastecimento de água de 371 municípios paulistas.
Desde a privatização, a Sabesp demitiu mais de 2 mil funcionários, registrou dois episódios de vazamento de esgoto em rios da região metropolitana e concentrou a distribuição de dividendos para acionistas. A distribuição de lucros, que era de 25% até 2024, sobe para 50% em 2026 e 2027, podendo chegar a 100% a partir de 2030. Por outro lado, a empresa registrou expansão de conexões, com mais de 484 mil imóveis ligados à rede de água e 524 mil à de esgoto entre janeiro de 2024 e junho de 2025.
Quem controla a água, controla tudo
O que está em jogo vai além das tarifas. Pesquisadores que estudam o tema apontam que a transferência do controle da água para o setor privado cria uma assimetria estrutural: as empresas concessionárias têm acesso irrestrito aos dados de consumo, infraestrutura e vulnerabilidade dos sistemas, enquanto o poder público perde progressivamente a capacidade técnica de fiscalizar e, se necessário, reverter o processo. O risco descrito pela literatura científica é o da “captura regulatória”, situação em que os órgãos de controle passam a operar segundo a lógica dos concessionários, e a população fica sem mecanismos efetivos de contestação.
A ONU reconheceu o acesso à água como direito humano fundamental em 2010, por meio da Resolução 64/292 da Assembleia Geral. O reconhecimento, porém, não gerou obrigações vinculantes para os estados signatários. Enquanto isso, o mercado global de serviços de água movimenta centenas de bilhões de dólares por ano, com projeções de crescimento acelerado nas próximas décadas, impulsionadas exatamente pelo aumento da escassez que torna o recurso mais valioso.
Quando a água vira alvo de guerra
O conflito entre EUA, Israel e Irã, que escalou em fevereiro de 2026, trouxe uma dimensão até então pouco discutida nos noticiários: a água como alvo estratégico de guerra. Em 2 de março, o Irã atacou o Porto de Jebel Ali, em Dubai, e os impactos foram sentidos a cerca de 19 km de uma das maiores usinas de dessalinização do mundo, responsável por grande parte da água potável da cidade. Danos também foram registrados no complexo de energia e água Fujairah F1, nos Emirados Árabes Unidos, e na usina de dessalinização Doha West, no Kuwait.
O Bahrein acusou o Irã de atingir diretamente uma de suas usinas de dessalinização. O Irã, por sua vez, denunciou que um ataque aéreo americano danificou uma usina de água na ilha de Qeshm, no Estreito de Ormuz, cortando o abastecimento de 30 aldeias. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, classificou o episódio como um crime flagrante e alertou que os Estados Unidos criaram esse precedente, abrindo caminho para que a infraestrutura hídrica civil se tornasse alvo legítimo de retaliação.
A dependência da região é extrema. No Kuwait, cerca de 90% da água potável vem da dessalinização. Na Arábia Saudita, aproximadamente 70%. Nos Emirados Árabes Unidos, o número é semelhante. Em 2021, as usinas de dessalinização do Golfo já produziam mais de 20 milhões de metros cúbicos de água por dia, o equivalente a 8 mil piscinas olímpicas diariamente, segundo dados do Centro de Ciências do Meio Ambiente, Pesca e Aquicultura de Omã. Destruir ou paralisar essas instalações significaria privar milhões de pessoas de água potável em questão de dias, sem alternativa imediata de substituição. Os componentes de uma planta de osmose reversa, se destruídos, levam meses para ser substituídos. Drones que custam entre 15 e 50 mil dólares cada podem destruir infraestruturas que custaram bilhões para ser construídas.
O episódio expõe uma vulnerabilidade que vai além da região do Golfo. Em um mundo onde a água já é escassa e cada vez mais valiosa, o controle sobre a infraestrutura hídrica, seja por privatização, seja por força militar, concentra nas mãos de poucos o poder de decidir quem bebe e quem passa sede.
A lógica é implacável: quanto menos água, mais ela vale. E quanto mais ela vale, maior o interesse do capital em controlá-la.
Referências (Exibir Todas)
MCDONALD, D. A. Remunicipalization: The future of water services? Geoforum, v. 91, p. 47-56, 2018. DOI: 10.1016/j.geoforum.2018.02.026
TRANSNATIONAL INSTITUTE. Reclaiming Public Services: How cities and citizens are turning back privatisation. Amsterdam: TNI, 2017. Atualizado em 2023.
KISHIMOTO, S.; PETITJEAN, O. Reclaiming Public Services. Amsterdam: Transnational Institute, 2017.
ONU. Resolução A/RES/64/292. O direito humano à água e ao saneamento. Nova York: Assembleia Geral das Nações Unidas, 28 jul. 2010.
INSTITUTO ÁGUA E SANEAMENTO. Um ano de privatização da Sabesp em 6 pontos. São Paulo: IAS, agosto de 2025. Disponível em: https://www.aguaesaneamento.org.br
AGÊNCIA BRASIL. Após privatização, Sabesp registra mais receita, demissões e vazamentos. Brasília: EBC, julho de 2025.
LOPES PINTO, J. R. Entrevista ao Brasil de Fato: Privatização da Cedae, lucros das concessionárias e estrutura acionária dos grupos privados de saneamento. Rio de Janeiro: UniRio/Nelutas/Ecopol, outubro de 2025.
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Relatório de fiscalização sobre aplicação dos recursos da privatização da Cedae. Rio de Janeiro: TCE-RJ, 2024.
CME GROUP. Nasdaq Veles California Water Index Futures. Chicago: CME, 2020. Disponível em: https://www.cmegroup.com
BANCO MUNDIAL. Private Participation in Infrastructure Database: Water and Sewerage Contracts. Washington: World Bank, 2024. Disponível em: https://ppi.worldbank.org
