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Corais ameaçados: a febre do oceano e a morte da cor

Corais ameaçados: a febre do oceano e a morte da cor

O mar absorve mais de 90% do calor gerado pelo aquecimento global. Durante décadas, esse processo protegeu o planeta de um colapso climático ainda mais acelerado. Mas o preço dessa proteção está sendo cobrado dos ecossistemas marinhos com uma brutalidade que a ciência nunca havia registrado antes. Os corais, que existem há 500 milhões de anos, estão sucumbindo em velocidade sem precedente histórico.

Em fevereiro de 2024, a temperatura média global da superfície dos oceanos ultrapassou 21°C, o maior valor já registrado. O mesmo ano foi confirmado como o mais quente da história da humanidade, e cada um dos oito anos anteriores havia quebrado o recorde de calor oceânico acumulado, segundo a Organização Meteorológica Mundial. Esse calor concentrado nos mares desencadeou o quarto evento global de branqueamento de corais já documentado, o maior de todos os tempos.

O calor que branqueia o planeta submarino

O branqueamento ocorre quando a temperatura da água sobe além da tolerância do coral. O estresse térmico rompe a relação simbiótica entre o coral e as zooxantelas, algas microscópicas que vivem em seu interior, produzem energia por fotossíntese e são responsáveis pela coloração vibrante dos recifes. Quando a temperatura se mantém elevada por tempo suficiente, o coral expulsa essas algas, fica branco e passa a morrer lentamente por inanição. Se a temperatura retornar ao normal com rapidez, o coral pode se recuperar. Nos episódios recentes, isso não está acontecendo.

Entre janeiro de 2023 e abril de 2025, o estresse térmico de nível de branqueamento atingiu 84% de todos os recifes de coral do planeta, com danos confirmados em ao menos 83 países e territórios, segundo o monitoramento da NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos. Na costa do México, a mortalidade chegou a 93% em algumas áreas. Na Flórida, houve extinção completa em certos recifes, com temperaturas que alcançaram 38°C. Na Grande Barreira de Coral australiana, o quinto evento massivo de branqueamento desde 2016 destruiu mais de um terço dos corais vivos nas regiões norte, o maior declínio anual em quase 40 anos de registros do Instituto Australiano de Ciências Marinhas.

Um estudo publicado na revista Nature em agosto de 2024, com base em análise de registros de temperatura dos últimos 400 anos na região do Mar de Coral, concluiu que as temperaturas extremas que causaram os branqueamentos em massa na Grande Barreira de Coral entre 2016 e 2024 foram as mais altas em quatro séculos, e que a influência humana sobre o sistema climático é diretamente responsável pelo aquecimento acelerado das últimas décadas. Para calibrar a escala da catástrofe em curso, a NOAA precisou expandir sua escala de alertas de branqueamento com três novos níveis. O nível máximo anterior indicava risco de mortalidade para corais sensíveis ao calor. O novo nível máximo indica risco de morte para mais de 80% de todos os corais de um recife. Um climatologista da Universidade de New South Wales descreveu a adição como o equivalente coral de incluir uma categoria 6 e 7 na escala de furacões.

O que desaparece quando a cor some

As projeções indicam que o pior ainda está por vir. Uma análise publicada na revista Science Advances, com base em projeções diárias de aquecimento oceânico, calculou que até 2080 o branqueamento de corais tende a começar na primavera em vez de no verão, com alguns recifes de baixa latitude enfrentando risco permanente de branqueamento ao longo de todo o ano, independentemente dos esforços globais de mitigação climática. A frequência entre eventos consecutivos já está abaixo do tempo mínimo necessário para a recuperação dos recifes.

Os recifes de coral cobrem menos de 1% do fundo oceânico, mas sustentam cerca de 25% de toda a vida marinha conhecida. Um bilhão de pessoas depende direta ou indiretamente desses ecossistemas para alimentação, renda e proteção costeira. A perda dos recifes expõe linhas costeiras à erosão acelerada, compromete a pesca de subsistência de populações vulneráveis e elimina um patrimônio biológico que nenhuma tecnologia disponível consegue recriar. Os corais sobreviveram a cinco extinções em massa ao longo de meio bilhão de anos. A questão que a ciência coloca agora é se conseguirão sobreviver a nós.

Referências (Exibir Todas)

RYAN, S. et al. Highest ocean heat in four centuries places Great Barrier Reef in danger. Nature, v. 632, p. 320-326, agosto de 2024. DOI: 10.1038/s41586-024-07672-x

NOAA CORAL REEF WATCH. Current Global Bleaching Event: Status Update. National Oceanic and Atmospheric Administration, abril de 2025. Disponível em: https://coralreefwatch.noaa.gov

INTERNATIONAL CORAL REEF INITIATIVE (ICRI). 84% of the world’s coral reefs impacted in the most intense global coral bleaching event ever. Abril de 2025. Disponível em: https://icriforum.org/4gbe-2025/

MCCLANAHAN, T. R. et al. A global analysis of coral bleaching over the past two decades. Nature Communications, 2019. DOI: 10.1038/s41467-019-09238-2

LOUGH, J. M. et al. Cumulative risk of future bleaching for the world’s coral reefs. Science Advances, 2024. DOI: 10.1126/sciadv.adn9660

WORLD METEOROLOGICAL ORGANIZATION. State of the Global Climate 2024. Genebra: WMO, 2025.

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Rafael é jornalista de dados, escrevendo sobre memória, povos e cidades. Produz reportagens especiais de interesse público com foco desigualdades socioambientais e territoriais.

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