Da crise ambiental à recuperação monitorada
Da crise ambiental que marcou a história brasileira à recuperação monitorada, avanços são reconhecidos, mas estudos científicos indicam que os números exigem leitura cuidadosa e os impactos à saúde seguem em debate.
Durante as décadas de 1970 e 1980, Cubatão tornou-se símbolo da degradação ambiental urbana no Brasil. A concentração de indústrias petroquímicas, siderúrgicas e de fertilizantes transformou o município em um dos polos industriais mais relevantes do país e também em um dos territórios mais impactados por poluição atmosférica.
Relatórios técnicos da época registraram níveis elevados de dióxido de enxofre (SO₂), óxidos de nitrogênio, fluoretos e material particulado. A vegetação da Serra do Mar sofreu desfolhamento severo em áreas extensas. Bairros operários conviviam com fuligem constante e odores intensos.
Pesquisas conduzidas por especialistas da Universidade de São Paulo identificaram associação entre exposição prolongada a poluentes atmosféricos e aumento de internações por doenças respiratórias e cardiovasculares, sobretudo entre idosos e crianças. Estudos epidemiológicos apontaram correlação entre elevação de material particulado (PM10) e crescimento da mortalidade por causas respiratórias.
O município passou a figurar como exemplo extremo de exposição crônica à poluição industrial, tornando-se um marco na história ambiental brasileira.
O número que virou símbolo
Quatro décadas depois, Cubatão é frequentemente citada como caso de sucesso ambiental.
Dados históricos da CETESB indicam redução de aproximadamente 97% a 98% nas emissões atmosféricas monitoradas desde a implantação do Programa de Controle da Poluição Industrial, iniciado na década de 1980. A carga orgânica lançada nos corpos d’água teria diminuído cerca de 92%, segundo relatórios técnicos do órgão.
Em 2024, o município recebeu pelo quarto ano consecutivo o selo da Agenda Ambiental na Administração Pública (A3P), concedido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Mas a leitura científica recente sugere que esses percentuais precisam ser interpretados com cautela.
Pesquisa defendida em 2023 na Universidade Estadual Paulista aplicou modelo econométrico de Diferenças-em-Diferenças para estimar o impacto das políticas ambientais sobre partículas inaláveis específicas entre 1985 e 2020. O estudo apontou reduções entre 42% e 49%, dependendo do poluente analisado e do período considerado.
A diferença entre os percentuais decorre das metodologias utilizadas. Enquanto os dados históricos agregam múltiplos poluentes ao longo de décadas, a pesquisa acadêmica isolou substâncias específicas e comparou Cubatão a municípios de controle.
A professora Elisa Esposito, da Universidade Federal de São Paulo, afirma que Cubatão pode ser considerada modelo de recuperação ambiental. No entanto, observa que o dado de 98% de redução, frequentemente citado em fontes jornalísticas e pela CETESB, deve ser contextualizado. Segundo ela, estudos acadêmicos mais recentes encontram reduções na faixa de 42% a 49% para partículas inaláveis específicas, dependendo do período e do poluente analisado.
Para a pesquisadora, os números não são necessariamente contraditórios, mas refletem recortes metodológicos distintos de um mesmo processo histórico.
Qualidade do ar hoje: melhora consistente, mas ainda monitorada
Relatórios recentes da CETESB classificam a qualidade do ar em Cubatão predominantemente como “boa” ou “moderada”. A categoria “moderada” indica que a população em geral não apresenta efeitos significativos, mas grupos sensíveis podem manifestar sintomas.
Estudo da UNESP, em 2022, classificou o Índice de Qualidade do Ar em áreas historicamente impactadas como “moderado”, indicando avanço relevante em relação ao passado, mas não equivalência plena a padrões considerados ideais.
Em comparação com municípios industriais como Paulínia e Volta Redonda, Cubatão apresenta indicadores semelhantes para material particulado fino (PM10 e PM2.5), segundo relatórios estaduais e federais de monitoramento atmosférico.
A cidade deixou de ser exceção negativa, mas permanece sob vigilância ambiental constante.
Saúde pública: efeitos históricos e lacunas contemporâneas
A literatura científica consolidou evidências de que a exposição crônica à poluição atmosférica em Cubatão esteve associada ao aumento de doenças respiratórias e cardiovasculares nas décadas de maior emissão industrial.
Pesquisas desenvolvidas por grupos da Universidade Estadual de Campinas e da USP indicaram que concentrações elevadas de SO₂ e partículas finas estavam relacionadas a crises asmáticas, bronquite e agravamento de doenças cardíacas.
Relatos de malformações congênitas nos anos 1980 ganharam repercussão nacional, embora pesquisadores ressaltem a complexidade de estabelecer nexo causal direto entre poluentes específicos e desfechos clínicos individuais.
Hoje, doenças respiratórias continuam entre as principais causas de internação na Baixada Santista, segundo dados do sistema público de saúde. Contudo, faltam estudos epidemiológicos recentes que isolem o impacto da poluição atual em Cubatão de outros determinantes sociais e ambientais.
Especialistas apontam que mesmo níveis classificados como “moderados” podem produzir efeitos cumulativos ao longo dos anos, especialmente em populações vulneráveis. O monitoramento contínuo de indicadores de saúde é considerado fundamental para compreender tendências de longo prazo.
Passivo ambiental e regeneração ecológica
A recuperação não se restringiu à atmosfera.
Pesquisas conduzidas pela UNESP e pela UNICAMP analisaram presença de contaminantes em solos, vegetação e áreas estuarinas próximas ao complexo industrial. Espécies vegetais foram utilizadas como biomarcadores para identificar resíduos de fluoretos e outros compostos.
Parte da cobertura vegetal da Serra do Mar foi regenerada após programas de controle de emissões e reflorestamento iniciados nos anos 1980. Ainda assim, áreas industriais específicas permanecem sob monitoramento para avaliação de possíveis passivos ambientais.
A experiência demonstra que a recuperação ambiental é um processo multissetorial, pois envolve controle industrial, fiscalização estatal, inovação tecnológica e acompanhamento científico permanente.
Memória viva
Morador da Vila Nova, Francisco D’Ávila dos Santos, 76 anos, viveu o período mais crítico.
“Tinha dia em que a gente acordava com cheiro forte de enxofre e uma névoa que ardia os olhos. A roupa no varal ficava com pó escuro, e muita gente sofria com tosse constante. Hoje o ar está bem melhor, mas ainda tem dias em que o cheiro volta e a gente lembra do passado.”
Seu relato sintetiza a transformação e também a permanência da memória ambiental na identidade local.
Linha do tempo da transformação
- 1970 a 1980: expansão industrial acelerada e níveis críticos de poluição
- 1983 a 1985: implementação do Programa de Controle da Poluição Industrial
- Década de 1990: consolidação da fiscalização ambiental estadual
- 2000 a 2020: modernização tecnológica e redução progressiva das emissões
- 2024: reconhecimento institucional por políticas de gestão ambiental
O que Cubatão ensina
- Políticas ambientais robustas podem produzir reduções substanciais de emissões.
- Percentuais agregados precisam ser interpretados à luz das metodologias utilizadas.
- Recuperação atmosférica não encerra automaticamente impactos históricos à saúde e ao território.
- Transparência e monitoramento permanente são essenciais para evitar retrocessos.
Cubatão não é mais o “Vale da Morte”. Mas também não pode ser resumida a um único número.
Sua história mostra que a regeneração ambiental é um processo contínuo, sustentado por ciência, políticas públicas e memória social, e que medir essa transformação exige precisão, contexto e acompanhamento de longo prazo.
