Na segunda-feira, 16 de março de 2026, moradores de cidades do interior paulista acordaram e encontraram o Rio Tietê com uma aparência que poucos haviam visto antes. A água não estava apenas turva. Estava verde, densa e malcheirosa, coberta por uma camada superficial espessa que pescadores locais compararam a uma nata. Até esta quarta-feira, 18, a mancha se estendia por aproximadamente 105 quilômetros, entre os municípios de Buritama e Novo Horizonte, com registros visíveis também em Adolfo e Sales. A dimensão do fenômeno foi confirmada por imagens do satélite europeu Sentinel-2, do programa Copernicus, que monitora variações ambientais em tempo real.
Quando a cor do rio deixa de ser paisagem e passa a ser sinal de colapso
O processo que explica o que acontece tem nome técnico: eutrofização. Trata-se do enriquecimento excessivo da água por nutrientes, principalmente fósforo e nitrogênio, que estimula a proliferação descontrolada de algas e cianobactérias. As plantas aquáticas possuem clorofila em suas células, e quando se multiplicam em quantidade suficiente, tingem a superfície do rio com um verde intenso que, em alguns pontos do Tietê nesta semana, formou barreiras físicas à navegação de embarcações de pequeno porte.
A origem dos nutrientes que alimentam esse ciclo é conhecida e antiga. Esgoto doméstico não tratado, resíduos industriais, vinhaça de usinas sucroenergéticas e fertilizantes agrícolas carregados pelas chuvas das lavouras ribeirinhas chegam ao leito do rio e criam as condições perfeitas para o colapso biológico que a região presencia agora. As chuvas intensas do verão agiram como gatilho imediato ao provocar enxurradas que despejaram esses compostos no rio em volume concentrado. As altas temperaturas fizeram o restante. Em trechos onde a água está mais parada, como nos reservatórios das usinas hidrelétricas ao longo do trecho afetado, o processo de eutrofização é ainda mais acentuado, já que a ausência de correnteza impede a oxigenação natural da água.
O verde visível na superfície revela uma cadeia antiga de poluição invisível
As consequências imediatas são visíveis e mensuráveis. A proliferação das plantas aquáticas consome o oxigênio dissolvido no rio, asfixiando a vida aquática. Pescadores e moradores relataram episódios de mortandade de peixes ao longo do trecho afetado. O mau cheiro tornou-se constante nas margens. Em Adolfo, cidade cuja economia depende fortemente da pesca e do turismo fluvial, representantes locais relataram queda de até 90% no movimento de marinas. O contato com a água provoca coceira na pele, o que encerrou as atividades de lazer no rio durante a semana.
O fenômeno não é inédito no Tietê. Em fevereiro de 2026, pescadores e turistas já haviam relatado o mesmo cenário em trechos próximos. No ano passado, a situação foi debatida formalmente no Fórum de Integração das Ações de Recuperação do Rio Tietê, onde técnicos reconheceram a necessidade de um plano de ações de curto, médio e longo prazo. O fórum entendeu que, com o aquecimento global, a eutrofização tem se tornado mais intensa e mais frequente. O plano ainda não saiu do papel em escala suficiente.
A Cetesb confirmou que está monitorando a área por meio do Grupo de Fiscalização Integrada das Águas do Rio Tietê, o GFI-Tietê, coordenado pela Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do estado. Desde o início de 2025, o grupo realizou 296 inspeções ao longo do rio, aplicando mais de R$ 9,4 milhões em penalidades por descarte irregular de resíduos industriais. Para os pesquisadores que acompanham o Tietê, porém, a fiscalização reativa não resolve o problema estrutural. A recuperação da qualidade da água depende de controle rigoroso e permanente sobre o despejo de poluentes, investimento em saneamento nas bacias contribuintes e redução da carga de fertilizantes que escoa das lavouras para o leito do rio a cada chuva.
A crise desta semana expõe um passivo ambiental que o estado conhece há décadas
A Expedição Tietê, realizada em 2025 em parceria com universidades e coordenada pela SOS Mata Atlântica, percorreu todo o rio para investigar a presença de microplásticos, pesticidas, fármacos e organismos microbiológicos. Os resultados serão divulgados ainda em 2026 e devem oferecer o retrato mais completo já produzido sobre a saúde do rio. O relatório mais recente da SOS Mata Atlântica já indicava que, no trecho entre a nascente e Barra Bonita, 120 quilômetros apresentaram qualidade ruim e outros 54 quilômetros foram classificados como péssimos. A água de boa qualidade se restringia a apenas 34 quilômetros, entre Salesópolis e Biritiba Mirim.
O Tietê tem 1.100 quilômetros de extensão e nasce a menos de 100 quilômetros do oceano, correndo em sentido contrário ao mar até desaguar no Rio Paraná, na divisa com o Mato Grosso do Sul. É o rio símbolo do estado mais rico do Brasil. A mancha verde que o cobre nesta semana não é uma anomalia climática isolada. É o resultado acumulado de décadas de despejo, negligência e promessas não cumpridas. E tende a se repetir, com mais intensidade, enquanto as causas que a alimentam seguirem intactas.
Referências (Exibir Todas)
CETESB (COMPANHIA AMBIENTAL DO ESTADO DE SÃO PAULO). Monitoramento da eutrofização no Rio Tietê, trecho Buritama–Novo Horizonte. Grupo de Fiscalização Integrada das Águas do Rio Tietê (GFI-Tietê). São Paulo: CETESB, março de 2026.
FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA. Tietê segue vulnerável apesar de redução da mancha de poluição. São Paulo: SOS Mata Atlântica, 18 set. 2025. Disponível em: https://sosma.org.br/noticias/tiete-segue-vulneravel-apesar-de-reducao-da-mancha-de-poluicao
FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA. Observando o Tietê 2025. São Paulo: SOS Mata Atlântica, 2025.
PROGRAMA COPERNICUS; AGÊNCIA ESPACIAL EUROPEIA (ESA). Imagens Sentinel-2 do trecho afetado do Rio Tietê. março de 2026. Disponível em: https://www.copernicus.eu
FOLHAPRESS. Água do Rio Tietê fica verde em trecho de 100 km no interior paulista. 18 mar. 2026. Reprodução em Acessa.com. Disponível em: https://www.acessa.com/noticias/2026/03/315753-agua-do-rio-tiete-fica-verde-em-trecho-de-100-km-no-interior-paulista.html
TERRA. Algas se proliferam no Rio Tietê e fenômeno atinge ao menos três cidades do interior de SP. 17 mar. 2026. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/cidades/algas-se-proliferam-no-rio-tiete-e-fenomeno-atinge-ao-menos-tres-cidades-do-interior-de-sp,b8ca6938b345428cf628e61e83d019118trstqyv.html
FRENTE PARLAMENTAR VEREADORES PELO TIETÊ. Nota sobre a situação do Rio Tietê nos municípios de Adolfo, Sales, Sabino e Promissão. São Paulo, março de 2026.
