Dez anos após o Acordo de Paris, a COP30 escancara emissões concentradas e disputas na Amazônia
A COP30, realizada em Belém, consolidou o debate internacional sobre financiamento climático, transição energética e justiça socioambiental. Ao longo da conferência, governos reafirmaram compromissos vinculados ao Acordo de Paris, que estabeleceu o limite de 1,5°C como meta para conter o aquecimento global. No entanto, relatórios divulgados pela Oxfam Internacional e pela Oxfam Brasil, com base em dados de organismos multilaterais e índices socioeconômicos reconhecidos, evidenciaram que a estrutura da crise climática permaneceu profundamente ligada à concentração de riqueza e poder econômico.
As análises dialogaram com bases de dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, com estimativas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e com indicadores sociais como o Índice de Progresso Social, além de registros fundiários oficiais brasileiros. O conjunto dessas informações revelou que desigualdade de renda, emissões concentradas e violência territorial não são fenômenos isolados, mas partes de um mesmo sistema econômico e político.
Emissões concentradas e orçamento de carbono
O relatório “Saque Climático: como poucos poderosos estão levando o planeta ao colapso”, divulgado em outubro de 2025, apresentou dados sobre a participação do 0,1% mais rico da população mundial nas emissões globais de carbono.
Segundo a pesquisa, desde 1990 essa parcela ampliou em 32% sua participação nas emissões globais, enquanto a metade mais pobre registrou queda de 3% no mesmo período. Uma pessoa pertencente ao 0,1% mais rico emitiu, em média, mais de 800 quilos de CO₂ por dia. Entre os 50% mais pobres, a média foi de aproximadamente 2 quilos diários.
Os cálculos dialogaram com o conceito de orçamento global de carbono sistematizado pelo IPCC, que estima o volume máximo de emissões compatível com a meta de 1,5°C. A projeção indicou que, caso toda a população mundial tivesse mantido o padrão de emissões do 0,1% mais rico, o orçamento restante teria sido esgotado em menos de três semanas.
Além do consumo individual, o estudo examinou emissões associadas a investimentos financeiros. O bilionário médio foi estimado como responsável por aproximadamente 1,9 milhão de toneladas de CO₂ equivalente por ano por meio de participações em empresas de alto impacto ambiental. Quase 60% das aplicações financeiras desse grupo estiveram concentradas em setores como petróleo, gás e mineração.
As carteiras desses investidores apresentaram intensidade de emissões duas vezes e meia superior à média de empresas listadas no índice S&P Global 1.200. As emissões combinadas das carteiras de 308 bilionários superaram as emissões anuais somadas de 118 países, segundo o levantamento.
As projeções de impacto consideraram estudos epidemiológicos e estimativas de risco climático utilizadas por organismos internacionais. As emissões atribuídas ao 1% mais rico foram associadas à possibilidade de 1,3 milhão de mortes relacionadas ao calor até o fim do século, além de prejuízos econômicos estimados em 44 trilhões de dólares até 2050 para países de baixa e média renda.
Influência política e governança climática
O debate sobre desigualdade avançou também para o campo da governança. Na COP29, que antecedeu a conferência de Belém, foram registradas 1.773 credenciais concedidas a lobistas ligados às indústrias de carvão, petróleo e gás. O número superou o total de representantes oficiais dos dez países considerados mais vulneráveis aos impactos climáticos.
O relatório citou ainda mudanças regulatórias em países como Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha, que flexibilizaram normas ambientais em contextos de pressão econômica e política. O enfraquecimento regulatório foi analisado em paralelo a dados de financiamento de campanhas e influência corporativa.
Esse cenário dialogou diretamente com as discussões da COP30 sobre financiamento climático, taxação internacional e responsabilidade histórica. Propostas como cooperação tributária global no âmbito da ONU e restrição à participação de empresas de combustíveis fósseis nas negociações multilaterais foram apresentadas como instrumentos de correção de distorções estruturais.
Amazônia Legal e conflitos fundiários
No plano nacional, o relatório “Amazônia em Disputa: Conflitos Fundiários e Situação dos Defensores de Territórios” analisou a sobreposição entre pressão econômica, violência territorial e vulnerabilidade social.
A Amazônia Legal concentrou, em 2023, quase metade dos conflitos no campo registrados no Brasil. Com cerca de 5 milhões de quilômetros quadrados, correspondentes a 58,9% do território nacional, a região reuniu nove estados e apresentou os maiores índices de disputa por terra.
Os dados dialogaram com registros fundiários e cruzaram ocorrências de conflitos com o Índice de Progresso Social. Municípios como Altamira e São Félix do Xingu, no Pará, figuraram no Tier 9 do índice, grupo com os piores indicadores de qualidade de vida do país. Anapu e Tomé-Açu apareceram no Tier 7. Santarém registrou índice de 57,24, desempenho relativamente superior entre os municípios analisados.
No Maranhão, foram contabilizados 1.926 conflitos entre 2014 e 2023. Em 2024, o estado registrou 365 ocorrências, o maior número da série recente. Entre 2019 e 2024, ao menos 14 quilombolas foram assassinados no estado. Povos indígenas, comunidades tradicionais e defensores ambientais permaneceram entre os grupos mais expostos à violência.
A dinâmica territorial foi relacionada à grilagem de terras, ao desmatamento ilegal, ao garimpo, à expansão do agronegócio e à atuação de redes criminosas. Esses vetores econômicos também estiveram associados às cadeias globais de produção e ao fluxo internacional de capitais, conectando o debate fundiário regional ao sistema financeiro internacional analisado nos estudos sobre emissões concentradas.
Cadastro Ambiental Rural e mercado de carbono
O levantamento examinou o Cadastro Ambiental Rural na Amazônia Legal, que somou 1.107.021 imóveis cadastrados. Pará e Maranhão concentraram 470.535 registros, cerca de 43% do total regional. No Pará, 46% dos cadastros ainda não haviam passado por análise. No Maranhão, 29% permaneciam sem validação.
A ausência de validação integral dos registros foi apontada como fator que amplia insegurança jurídica e facilita disputas territoriais. Ao mesmo tempo, a expansão do mercado de carbono apareceu como nova frente de tensão. Projetos de compensação de emissões avançaram sobre territórios sem consulta prévia, livre e informada às comunidades afetadas, princípio reconhecido em tratados internacionais de direitos humanos.
Convergência entre desigualdade global e conflito local
Dez anos após a assinatura do Acordo de Paris, os dados apresentados durante e após a COP30 indicaram que o 1% mais rico da população mundial consumiu mais que o dobro do orçamento de carbono utilizado pela metade mais pobre da humanidade.
As evidências mostraram que a concentração de emissões no topo da pirâmide econômica esteve conectada ao financiamento de atividades intensivas em recursos naturais, muitas delas localizadas em regiões como a Amazônia. O capital que sustentou setores de alto impacto climático também esteve presente em cadeias produtivas associadas a desmatamento, mineração e expansão agropecuária.
A análise integrada dos relatórios demonstrou que emissões globais, influência política e conflitos fundiários compuseram um mesmo circuito estrutural. O debate travado na COP30 ampliou o reconhecimento de que metas climáticas dependem não apenas de inovação tecnológica e redução de carbono, mas de reformas institucionais, redistribuição de responsabilidades e fortalecimento de direitos territoriais.
A interligação entre orçamento de carbono, concentração de riqueza e violência no campo reforçou a centralidade da Amazônia no debate climático global e consolidou a desigualdade como variável decisiva para compreender os rumos da política ambiental nas próximas décadas.
