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Tapajós: ouro, mercúrio e sangue

Tapajós: ouro, mercúrio e sangue

Nota do Editor

  • O Tapajós hoje é medido no corpo de quem vive às suas margens. Mercúrio acima dos limites internacionais não é abstração ambiental. É dado clínico, é risco neurológico, é alimento contaminado que atravessa gerações.
  • Entre estudos técnicos e mobilização indígena, o que está em jogo não é apenas narrativa territorial. É responsabilidade pública diante de evidências que já não permitem neutralidade.

Estudos revelam contaminação acima dos limites da OMS, pressão por infraestrutura e mobilização indígena que uniu gerações no oeste do Pará

A bacia do Rio Tapajós, uma das artérias mais vitais da Amazônia atravessa hoje sua crise mais severa. Com uma extensão aproximada de 850 quilômetros e uma área de drenagem que supera os 490 mil km², o Tapajós é a espinha dorsal de uma região onde vivem cerca de 1,4 milhão de pessoas. De Santarém, na foz, até as cabeceiras em Mato Grosso, o rio conecta biomas e culturas que agora compartilham um diagnóstico comum: a contaminação por mercúrio acima dos limites de segurança.

Entre 2022 e 2025, uma série de estudos conduzidos pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), em parceria com a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e o WWF-Brasil, descortinou um cenário de emergência sanitária. A exposição ao metal pesado, subproduto do garimpo e da mineração a céu aberto, deixou de ser uma suspeita ambiental para se tornar um dado biológico gravado no sangue e no cabelo das populações locais.

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FOTO: Aimberesena

A matemática da contaminação

A gravidade do cenário é medida em microgramas por grama (µg/g), unidade usada para analisar o mercúrio retido no cabelo humano. Os parâmetros internacionais são rígidos por uma razão biológica: o mercúrio é um metal neurotóxico que não é eliminado facilmente pelo organismo.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a FAO estabelecem 2,0 µg/g como patamar de baixo risco. No entanto, pesquisas recentes na Terra Indígena Sawré Muybu, no Médio Tapajós, revelam realidade distinta. Seis em cada dez indígenas Munduruku apresentam níveis acima do considerado seguro. Em casos mais agudos, foram detectados índices de até 18,0 µg/g. Nove vezes o limite internacional.

Na área urbana de Santarém, levantamento da UFOPA revelou que 75,7% dos participantes apresentaram concentração de mercúrio acima do limite de baixo risco. A contaminação não se restringe às áreas próximas ao garimpo e alcança centros urbanos.

 

Impacto neurológico

A partir de 6,0 µg/g, há associação com risco de dano neurológico, segundo parâmetros utilizados pela OMS e pela Fiocruz. O mercúrio atravessa a barreira hematoencefálica e atinge o sistema nervoso central.

Os sintomas podem incluir perda de sensibilidade nas mãos e nos pés, tremores, comprometimento da coordenação motora e déficits cognitivos. Em exposições prolongadas, os efeitos tendem a se agravar.

O impacto mais crítico é o transgeracional. No Baixo Tapajós, cerca de 70% das mulheres em idade fértil amostradas apresentaram média de 36,2 µg/L de mercúrio no sangue. Durante a gestação, o metal pode atravessar a placenta, aumentando o risco de prejuízos ao desenvolvimento neurológico do feto, com possíveis reflexos no desenvolvimento psicomotor e na aprendizagem.

A cadeia alimentar: Mercúrio no prato

A contaminação hídrica segue a lógica da bioacumulação. O mercúrio lançado nos rios é transformado por microrganismos em metilmercúrio, a forma mais tóxica do metal, que se acumula ao longo da cadeia alimentar.

De acordo com o estudo “Impacto do Mercúrio em Áreas Protegidas e Povos da Amazônia” (2024), peixes piscívoros na bacia do Tapajós apresentam médias de 6,46 µg/g. Essa unidade é equivalente a miligrama por quilo (mg/kg), padrão adotado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, cujo limite para peixes predadores é de 1,0 mg/kg, conforme a RDC 42/2013.

Espécies como filhote, piraíba, tucunaré e dourada apresentam maior tendência à concentração do metal. Espécies herbívoras ou detritívoros, como pacu, jaraqui e curimatã, registram níveis significativamente menores.

Para populações cuja base alimentar depende do pescado, o dado representa um desafio de saúde pública e segurança alimentar.

Pressão territorial 

O avanço da contaminação ocorre em um contexto de atividade garimpeira persistente na região. O uso de mercúrio no processo de extração de ouro é apontado por estudos científicos como um dos principais vetores da poluição.

Diante desse cenário, o Ministério Público Federal (MPF) emitiu, em fevereiro de 2024, recomendação para que o Estado do Pará e os municípios de Itaituba, Jacareacanga e Trairão implementassem controle mais rigoroso das áreas contaminadas e monitoramento da saúde das populações afetadas.

Em 2025, a ENSP/Fiocruz iniciou nova fase de coletas focada especificamente em gestantes e bebês Munduruku, com o objetivo de avaliar possíveis impactos transgeracionais da exposição ao metal, em um contexto de pressão crescente por projetos logísticos e escoamento de commodities na região.

Uma mobilização que uniu gerações

Foi nesse cenário que ocorreu a ocupação do pátio de uma empresa associada por indígenas aos impactos no rio. A mobilização durou 33 dias e reuniu jovens e anciãos em uma articulação que combinou presença física e comunicação digital.

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Gabriel Lobato, do povo Borari, foi uma das vozes dessa mobilização.

“Dizem que rede social é coisa de branco. Pois então: a gente pegou essa coisa de branco e transformou em arma. Virou nosso arco e flecha moderno. Serve para defender território, memória e palavra.”

Durante a ocupação, jovens produziram vídeos e transmissões ao vivo, enquanto anciãos conduziam rituais e orientavam decisões coletivas. “Sem rede social, a história seria contada como sempre, pela empresa, pelo Estado. A gente viraria invasor. Mas a gente estava ali para retomar o que é nosso”, afirmou.

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Enquanto os relatórios apresentam números, comunidades relatam sintomas e preocupações com as próximas gerações. O futuro do Tapajós está sendo medido em microgramas e também na capacidade de mobilização de seus povos. A união entre jovens e anciãos mostra que a discussão sobre o rio ultrapassa a dimensão ambiental e alcança a saúde pública, o território e a continuidade cultural de quem vive às suas margens.


FOTO: Gabriel Lobato – Povo Borari

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Rafael é jornalista de dados, escrevendo sobre memória, povos e cidades. Produz reportagens especiais de interesse público com foco desigualdades socioambientais e territoriais.

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