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Wagner Moura e a Lei Rouanet na formação da cultura pública no Brasil
Photo Credit To Paulo Pinto/Agência Brasil

Wagner Moura e a Lei Rouanet na formação da cultura pública no Brasil

Nota do Editor

  • Este texto parte da convicção de que cultura não é ornamento, mas estrutura. A fala de Wagner Moura funciona aqui como um sintoma de algo mais profundo: a distância entre aquilo que celebramos publicamente e aquilo que ainda não aprendemos a compreender como fundamento social. Ao deslocar o debate do ruído para o sentido, esta análise convida o leitor a pensar políticas culturais como parte da arquitetura civil de um país que precisa reaprender a se narrar.

Quando um artista brasileiro desloca-se do cenário nacional para vencer um prêmio internacional de grande magnitude, isso não é apenas uma vitória pessoal. É um ponto de inflexão simbólico.

Em 11 de janeiro de 2026, Wagner Moura tornou-se o primeiro brasileiro a ganhar o Golden Globe de Melhor Ator em Filme Dramático por sua atuação em The Secret Agent, um filme que dialoga com memórias históricas profundas e traumas geracionais, dirigido por Kleber Mendonça Filho e amplamente reconhecido na temporada de premiações internacionais.

O reconhecimento não se limitou a Hollywood: no Festival de Cannes de 2025, Moura já havia conquistado o prêmio de Melhor Ator, marcando sua trajetória como intérprete que atravessa fronteiras estéticas e culturais.

Esse percurso agregou significado às palavras que ele proferiu em novembro de 2025 durante uma entrevista à revista CartaCapital, no contexto da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ao comentar críticas dirigidas às políticas de incentivo à cultura no Brasil. Na ocasião, Moura afirmou que “não dá para explicar a Lei Rouanet para quem ainda não assimilou a Lei Áurea”, posicionando-se contra ataques simplistas às leis de incentivo e associando o debate cultural à memória histórica de injustiças sociais.

Fonte: Fotos Públicas. Los Angeles/EUA, 12/01/2026 — O Agente Secreto conquistou dois dos três prêmios aos quais foi indicado na cerimônia do Globo de Ouro 2026. É a primeira vez na história que uma produção brasileira vence duas categorias na mesma edição da premiação: Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator, com Wagner Moura.
Foto: @goldenglobes

A Lei Federal de Incentivo à Cultura, instituída em 1991 e popularmente conhecida como Lei Rouanet, é um mecanismo jurídico que autoriza a destinação de parte do imposto de renda de pessoas físicas e jurídicas a projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura. Sua existência reflete uma tentativa de ampliar o acesso a financiamento para produção cultural em um país de grande desigualdade regional e social.

Reduzir esse instrumento a um símbolo de “privilegiados” ou usá-lo como alvo retórico ignora sua função institucional e os complexos critérios técnicos que regem sua aplicação. A crítica superficial que frequentemente circula nas redes e em parte da mídia carece de definição conceitual e desconsidera outros mecanismos de fomento, por exemplo, o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que financiou The Secret Agent e outras produções brasileiras de impacto internacional, incluindo o filme vencedor na categoria de Melhor Filme em Língua Não Inglesa no mesmo Golden Globe.

O episódio evidencia algo mais profundo: há, entre amplos segmentos do público e até entre setores da imprensa, uma dificuldade recorrente em articular conceitos de políticas culturais com seus efeitos tangíveis. Não se trata apenas de defender um programa de incentivos ou de condenar outro. Trata-se de compreender que cultura é parte da infraestrutura civil de uma sociedade, moldando como uma nação se reconhece, interpreta sua história e projeta seu futuro.

A produção cultural não é apenas entretenimento. Ela é arquitetura simbólica, capaz de traduzir conflitos, suscitar empatia e oferecer narrativas que sustentam coesão social. Promover esses processos exige decisões públicas deliberadas, regras claras e mecanismos que conectem gerações, territórios e linguagens diversas. Não se faz democracia sem deliberar sobre os mecanismos que permitem que diferentes vozes existam e sejam ouvidas.

É nesse contexto que o Jornalismo Colaborativo para Transformação Social se coloca como projeto editorial com proposta específica: conectar políticas públicas, dados sociais e experiências vivas em narrativas que possam ser compreendidas por uma sociedade misturada em paradoxos, contradições e urgências civis.

Não se trata de defesa acrítica de instrumentos, nem de militância ideológica. Trata-se de criar pontes entre conhecimento técnico e experiência social, entre dispositivos institucionais e vidas reais.

A fala de Wagner Moura revela uma tensão latente no debate público brasileiro: a incapacidade de sustentar uma discussão qualificada sobre as leis de incentivo à cultura com suas limitações e potencialidades sem recorrer a caricaturas ou polarizações simplistas. Esse tipo de debate exige linguagem precisa, abordagem informada e vontade coletiva de compreender mecanismos complexos.

Quando políticas culturais são descartadas ou caricaturadas sem que se discuta seu contexto técnico e impacto social, perde-se a oportunidade de aprender coletivamente. A desinformação não reside apenas na falta de acesso a dados, mas no fracasso em traduzir esses dados em narrativas significativas para a sociedade.

No fundo, o que essa discussão expõe não é apenas um impasse técnico ou ideológico, mas uma pergunta que o Brasil evita formular em voz alta: que lugar a cultura ocupa na nossa ideia de sociedade? Ela é um adorno que toleramos quando sobra, ou um dos alicerces que sustentam nossa capacidade de existir coletivamente?

Um país que não compreende seus próprios mecanismos culturais costuma confundir privilégio com direito, gasto com investimento, ruído com criação. E, ao fazer isso, perde mais do que recursos: perde linguagem, memória e horizonte. Perde a capacidade de se narrar.

Quando Wagner Moura fala, ele não entrega um manual. Ele expõe uma fratura. A fratura entre o que o Brasil consome como imagem de si mesmo e o que se recusa a entender como estrutura. Sua fala não resolve o problema, ela o torna impossível de ignorar.

Celebramos prêmios, ovacionamos talentos, aplaudimos quando somos reconhecidos lá fora. Mas seguimos inseguros diante das engrenagens que tornam essas conquistas possíveis aqui dentro. Essa contradição não é cultural. É psíquica. É social. É histórica.

E talvez seja por isso que esse debate incomode tanto: porque ele não fala apenas de cinema, de leis ou de financiamento. Ele fala do que escolhemos sustentar como país e do que estamos dispostos a abandonar sem perceber.

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