24 de junho, 2019

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Casei com a internet

Casei com a internet

Algum dia me senti sozinho, olhando as paredes ou os vizinhos a caminho do trabalho. Até que pintou no pedaço a Internet. O rádio ajudava, mas agora podemos responder, intervir, compartilhar, tudo ao vivo e a cores. Não há espaço para a tristeza, a não ser que queiramos propositadamente nos enganar com algum tipo de saudade. É verdade que já tentei fazer apologia da solidão, páginas inteiras reescritas várias vezes com ajuda de psicólogas, mas o entusiasmo pelo assunto só durava enquanto escrevia.

Lembro também da ousadia de escrever em jornais: “o presidente da República, João Goulart”… como se eu fosse parceiro dele, amigo, alguma coisa assim. Nenhum respeito a maior autoridade do País. Mal sabia que as regras valem mais do que as leis, em certos casos. A informalidade do jornalismo é maior do que a formalidade das leis. Qualquer pessoa escreve “Fora Temer” com a maior cara de pau.

Algum dia quis ser médico. Depois de 30 dias em Cuba, aonde fui a convite do amigo Francisco Julião Arruda de Paula, faltei ao embarque da volta na esperança de morar no Edifício de los Becados (bolsistas) e cursar Medicina de graça e sem vestibular. Mero sonho. Faltava um ano para concluir o segundo grau, condição óbvia para entrar na universidade. Empurraram-me de volta ao Brasil no primeiro voo, para concluir o secundário no Colégio Estadual de Pernambuco, tradicional escola do Recife.

Algum dia quis ser músico. Meu pai tocava violino e minha mãe era corista na igreja matriz de Chã Grande e depois na de Gravatá, onde nasci. Comecei a estudar solfejo com Manoel Bombardino, maestro da Corporação Musical XV de Novembro e pai de Adelson Pereira, atual baterista da Spok Frevo Orquestra. Nunca fui além das serestas à Silvio Caldas com o cantor e pintor Romero Figueiredo. Sabia tocar violão, mas só primeira, segunda e terceira posições de lá menor e alguns acordes dissonantes.

Algum dia quis ser jurista. Fui aluno de Franco Montoro nas Faculdades Metropolitanas Unidas mas não fiz jus ao diploma por causa de duas dependências. Às vezes trocava as aulas da classe por lições de vida nos botecos do Bixiga, cheios de nordestinos com peixeiras a tiracolo.

Na redação de O Estado de S. Paulo, Clóvis Rossi, Ludenbergue Góes, Ricardo Kotscho, entre outros, convenceram-me a permanecer jornalista, profissão que me proporcionou a compra de um Dauphine 63 e de um apartamento do BNH, onde ainda moro.

Algum dia fui crítico de Variedades. Colunista de jornal, cheguei a jurado do programa de Chacrinha e do Troféu Imprensa. Sílvio Santos me tomou o microfone no terceiro ano quando eu disse que o troféu atribuído a Altemar Dutra era “mais um” que iria para duas salas de láureas que acabara de ver na casa dele. Sílvio queria que tratasse o troféu como o mais importante do mundo. O conterrâneo Chacrinha era mais generoso. Pagava à vista para que dissesse qualquer barbaridade.

Respeitava José Ramos Tinhorão, o mais sério e honesto crítico de música do Brasil. Ainda hoje falo “bênção, Tinhorão” quando o encontro nos botecos dos Campos Elísios, onde é vizinho de outro velho amigo, Assis Ângelo, cuja cegueira não apagou a visão de historiador da MPB.

Algum dia quis ser bem casado. Fui buscar uma namorada nos confins de Pernambuco. Deu trabalho convencê-la a morar em São Paulo. Trouxe-a no meu Dauphine e tivemos dois filhos maravilhosos, que nos deram seis netos. Mas nem todo casamento dura para sempre, daí a tese da solidão. Tentei concluí-la – nenhuma psicóloga concordou. Bastava ver um decote ou uma mini-saia – adeus solidão! Em última instância, casei com a internet.

por Flávio Tiné, Jornalista e membro da UBE-União Brasileira de Escritores, seção PE

CC BY 4.0 Casei com a internet by Flávio Tiné is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Sobre o Autor

Flávio Tiné

Jornalista profissional desde 1962, quando começou na Última Hora, Recife. Seu último emprego foi como assessor de imprensa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, onde ficou 21 anos. Antes, trabalhou em duas outras assessorias de imprensa: Siemens e Unibanco. Já havia passado por diferentes experiências como repórter e redator na Editora Abril, O Estado de S. Paulo, Diário do Grande ABC, A Gazeta e Diário do Comércio e Indústria. Escreveu três livros: "Pois não, Doutor". sobre o HC; "Viver Tem Remédio", crônicas, e "As Boas Lembranças da Luta", em que repassa acontecimentos ligados a efêmeras atividades políticas. Foi casado durante 10 anos, tem dois filhos e seis netos.

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