21 de abril, 2019

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Jornalismo e Cidadania nas Eleições 2018

Jornalismo e Cidadania nas Eleições 2018

DESTAQUE EDITORIAL

  • O papel do profissional de comunicação, seja ele repórter ou editor de um jornal não se resume em apenas informar o seu público leitor, mas também em explicar de forma clara e independente o que determinada notícia ou resultado desta podem afetar ou não a vida do cidadão.

No dia 16 de agosto começam os alto falantes com os jingles ecoando pelas avenidas e as armadilhas de papéis em todas as calçadas, postes e outdoors. Preste atenção onde pisa para evitar quedas ou outro tipo de acidente. Dificilmente qualquer um desses “informes” impressos com a carinha de um político irá anunciar que lixo na calçada é crime e representa perigo para o pedestre. 

Apesar de um “jeitinho” muitas vezes carregado por aquela estigma que já não é mais de um brasileiro tão “bonzinho” assim, ainda restaria orgulho de viver em um país democrático, onde as divisões políticas são bem definidas em suas extremidades territoriais com um sistema eleitoral majoritário para Presidente e demais chefes do executivo.

Só que não é bem assim.

Como visto e sentido no próprio bolso, esse modelo tem se mostrado ineficiente no país, distanciando a população da fiscalização sobre as ações dos eleitos e incentivando a escolha superficial desses representantes políticos.

Consequentemente, a inutilização ou falta de interesse nos recursos disponíveis para conhecer melhor os candidatos, faz gerar uma certa negligência também dos eleitores, já que o simples ato de votação é um dos fragmentos do repertório que compõe a prática cidadã.

Cada vez mais habituadas com as aplicações digitais, pessoas de diferentes regiões do país podem contar com os mais variados recursos capazes de torná-las mais participativas na política e na sociedade de um modo geral.

Por isso, informações com dados oficiais e que são alimentados e registrados em tempo real a partir de denúncias, agora e mais do nunca são ferramentas importantes de combate aos problemas sociais, além de serem fontes primárias para o jornalista investigativo ou mesmo repórter cidadão.

De acordo com os últimos dados levantados pelo TSE, existem aproximadamente 147 milhões de pessoas devidamente regularizadas junto ao órgão e que em outubro deste ano poderão eleger seus candidatos políticos.

A pesquisa realizada entre 2014 e 2018, aponta que apesar da redução no crescimento do eleitorado de jovens, o número de brasileiros que vivem no exterior, de mulheres e aposentados acima de 70 anos aumentou. Isso comprova que votar é uma atitude que requer entendimento civico e mais do que isso, é preciso ter disposição para observar e vigiar melhor o nosso país.

Órfãos de uma educação pública de qualidade e distantes da noção de realidade sobra política, famílias de baixa renda tendem a serem mais suscetíveis em acreditar nas informações que são publicadas ou disseminadas na rede sem qualquer tipo de verificação.

Por esse motivo que o trabalho de filtragem e apuração de jornalistas, neste caso de “gatekeeper” é fundamental.  Principalmente durante o período eleitoral, em que as informações disparadas pelas assessorias de imprensa dos candidatos nem sempre caminham junto com a verdade. 

O papel do profissional de comunicação, seja ele repórter ou editor de um jornal não se resume em apenas informar o seu público leitor, mas também em explicar de forma clara e independente o que determinada notícia ou resultado desta podem afetar ou não a vida do cidadão.

Pensando justamente no peso que uma reforma política poderia gerar às eleições de candidatos ao Governo, especialistas sugerem dois modelos para o sistema eleitoral brasileiro, porém apenas um parece fazer mais sentido:

VOTO DISTRITAL MISTO

Voto distrital misto, funciona da seguinte forma: o voto é dado ao partido, considerando o quociente eleitoral. Em seguida, o número de cadeiras disponíveis e aí sim, de forma analítica, julga-se o número de votos dos candidatos do partido. A candidatura é mais uma mera consequência do que a definição de escolha dos eleitores, em que o representante não é o candidato escolhido pela população regional e sim pelo sistema político que passa a sensação de “eleição”, porém, na prática não é dessa forma que realmente acontece.

Entende-se que para ocorrer uma mudança no país, urge a necessidade de uma Reforma Política para que os governantes sejam também governados pelo cidadão e não o contrário, como é hoje em dia. Afinal, para os políticos não há interesse nesse empoderamento civil, pois se considerarmos o voto distrital puro como novo modelo para o país, esses mesmos políticos terão um novo patrão: você!

VOTO DISTRITAL PURO

Países desenvolvidos como a Inglaterra e França adotam o sistema político de voto distrital puro. Esse modelo visa dividir uma determinada localidade em várias regiões, as quais devem eleger o candidato mais votado para representar sua região, no caso o distrito o qual ele representa. Isso possibilita a fiscalização da justiça, do Tribunal de Contas, da Imprensa e principalmente a cobrança por parte da  população que o elegeu. Essa percepção é capaz de munir os cidadãos de determinadas localidades para a tomada de decisão em reelegê-lo ou não nas próximas eleições.

Até onde chegamos com o atual sistema eleitoral brasileiro 

Segundo o Índice de Democracia da Unidade de Inteligência da revista The Economist, vergonhosamente o Brasil ocupa a 49ª posição entre 167 nações. Atualmente o país é considerado como uma “democracia falha”, pois como não há equilíbrio entre os três poderes, falta confiança na própria democracia.

O maior desafio é informar os cidadãos de modo compreensível quanto aos aspectos do modelo de votação em vigor, expondo a ineficácia que ele representa.

Os últimos dados levantados pela Transparência Internacional, orgão responsável pela Coalização Mundial de Combate à Corrupção apresenta uma percepção negativa para países como o Brasil que tiveram pouco ou nenhum progresso nesse sentido. Em uma escala de zero a cem, a pesquisa classicou os níveis percebidos de corrupção na política, onde 0 é altamente corrupto e 100 é livre desse problema, sendo considerado “muito limpo”.

Em fevereiro deste ano, o índice constatou que mais de dois terços dos países pontuam abaixo de 50. O Brasil é um deles com apenas 37 pontos, ficando na 96ª posição entre 180 países analisados. Infelizmente, em comparação com os últimos anos, esse fraco desempenho não é novidade.

O que tudo indica é que a mudança no quadro atual deverá ocorrer na base. Portanto, será preciso mais do que informar já que na maior parte do país carecem programas que formem cidadãos.

Exercer cidadania vai além de um simples voto. Trata-se da mudança de comportamento, desde permanecer alerta às “notícias” a fim de interpretá-las com maior assertividade, até o compromisso responsável de propagar a informação. Dessa maneira, mais e mais pessoas tomam a iniciativa de construir pontes que restabelecem a confiança na Gestão Pública.

Recursos disponíveis que evitam a alienação e estimulam a participação popular na política

Recentemente foram desenvolvidas algumas soluções com objetivo de amparar o cidadão e tornar a sua participação exponencial e não somente no momento da escolha do eleitor perante as urnas.

O Detector de Corrupção é um aplicativo que traz buscas relacionadas quanto às pendências judiciais com base no histórico dos candidatos registrados nos órgãos STF, STJ, bem como os TJs estaduais e os TRFs.   

Um outro mecanismo é o recurso adicional como extensão do navegador Chrome: A Cor da Corrupção não perdoa políticos que apresentam pendências judiciais, destacando-os em roxo. Uma iniciativa por parte do projeto “Vigie Aqui”, mesmo desenvolvedor do “Reclame Aqui” que coopera com informações de presidentes, ex-presidentes, deputados federais, governadores e senadores. Com mais de 16 mil downloads, a expectativa é que o número de usuários alcance a marca de 100 mil e que esse novo recurso digital, consiga atuar como vigilante de vereadores e prefeitos.

“O conhecimento liberta o homem de qualquer limitação, até mesmo de sua própria ignorância” parafraseado por Mario Sergio Cortella; conhecimento esse propiciado não somente pelo acesso à informação, mas também pela detecção de interesse em digerir as informações, buscando veracidade e confiabilidade das fontes consultadas. 

Partindo do pressuposto que mais olhos vigiando a política representam mais pessoas conscientes propagando informações de interesse público, a corrupção deixará de ganhar espaço gradativamente.

Nesse sentido, a informação considerada “real news” é uma aliada ao cidadão que toma para si a responsabilidade da eleição como um compromisso sério. E buscar compreender o sistema político nos âmbitos dos deveres e direitos é fundamental para não ser evangelizado pela famosa “fake news” (falsas notícias).

No dia 30 de julho a Central Brasileira de Notícias iniciou uma campanha “Fato ou Fake”, oferecendo recurso de checagem de conteúdos suspeitos por jornalistas da CBN. A intenção é justamente auxiliar na veracidade das informações que são constantemente disseminadas nas redes sociais, locais que sabidamente já identificou-se o grau de influência ao representar risco à população na tomada de decisão, seja ela política ou social.

A metodologia será realizada por títulos de identificação informando se a notícia é “Fake”, ou seja, conteúdo que não se baseia em fatos ou dados concretos”; “Não é bem assim”, conteúdo parcialmente verdadeiro, exagerado ou incompleto” ou o “Fato” que é o conteúdo totalmente verídico e comprovado por meio de dados.

Será com base nesses princípios, que a rede de notícias Globo começa sua campanha que buscará promover a conscientização das pessoas ao reunir esforços por meio de uma equipe de profissionais especializados em investigação e auditoria de conteúdo digital.

Vale lembrar, que a imprensa tem um papel importante em toda a sociedade no que diz respeito à transmissão dos fatos com clareza, precisão e verdade. Mas, infelizmente não é o que comumente vemos nos noticiários, pois o que é tornado público, muitas vezes correspondem somente aos interesses políticos e comerciais. E que são definidos em paralelo à agendas noticiosas que deixam o indivíduo hipnotizado em uma silenciosa espiral. Como efeito, o resultado é uma sensação de minoria na população, reprimindo sua opinião de tal modo que a manipulação da massa reflete em manifestações públicas nas redes sociais, muitas vezes convertidas em discursos de ódio. 

“Uma grande verdade, mesmo mal sugerida, comove-nos mais do que uma verdade medíocre completamente exprimida.”, a frase cunhada pelo filósofo Henry Thoreau expõe um dos principais problemas de uma sociedade que ainda está aprendendo a identificar o que é falso ou verdadeiro, ou ainda o que necessariamente precisa ser discutido.

Se a imprensa não mostra tudo a tecnologia não esconde nada

Denúncias de cidadãos que se sentem lesados pela ineficiência de serviços públicos básicos como segurança, saúde e educação, tem se tornado fato corriqueiro nas redações entre jornalistas e editores de jornais. Isso fica mais evidente quando observamos a crise da segurança no país.

Sitiados em suas casas, as famílias de comunidades carentes (lê-se aqui, principalmente das favelas) são reféns, ora de milicianos, ora de traficantes e em muitos casos da própria atuação truculenta da força policial.    

Por isso, iniciativas que auxiliam a população oprimida pela falta desses serviços que deveriam ser gratuítos, fazem toda a diferença, uma vez que nenhum grande veículo de comunicação irá tratar desses assuntos com a mesma frequência de outras notícias que geram mais audiência ou que simplesmente apresentam um tema com teor mais leve.

Sem ter por onde correr as pessoas buscam outras alternativas e recursos tecnólogicos de fácil alcance. O aplicativo OTT – Onde Tem Tiroteio, mapeia em tempo real as regiões de maior risco, e que estão em conflito no momento. Identificado por cores vermelha, amarela e verde, o App alerta turistas e moradores para evitarem situações adversas, tomando rotas mais seguras. Até agora já foram feitos mais de 15 mil downloads por moradores com uma média de 2.789 incidentes com armas de fogo, somente no anos passado (2017).

Outra ferramenta também merece destaque e tem sido bem utilizada no Rio de Janeiro e no Recife. O aplicativo Fogo Cruzado segue a mesma finalidade de sinalização do OTT, registrando o número de disparos e tiroteios e definindo,  inclusive, as rotas de risco.

A intervenção do jornalismo na política brasileira

As mídias sociais têm um papel importante e influenciador na sociedade quanto a difusão da informação e responsabilidade com a verdade. O mesmo ocorre como a imprensa. Considerado o Quarto Poder, o jornalismo impera sob a cobrança no governo em relação aos serviços prestados. No Brasil, há vários escândalos políticos que foram desvendados por jornalistas como, por exemplo, o famoso caso do “Mensalão”.

A noção do jornalismo como Quarto Poder legitimado pelas teorias democráticas realçam a atuação do jornalista como provedor de informações. Profissional essencial para tornar a opinião pública politicamente mais fortalecidade e consequentemente a sociedade como um todo mais esclarecida, separando o que é senso comum do que são fatos devidamente comprovados.

Nos últimos anos tem sido comum o surgimento de novos projetos e iniciativas de transformação social que buscam o comprometimento com a verdade e a transparência ao transmitir os fatos de interesse público.

O Google, que em 2016 foi acusado dessa prática, em detrimento das eleições nos Estados Unidos, hoje incentiva estudantes e jornalistas com cursos e práticas de apuração de dados e investigação de fatos com o projeto Google Initiative.

Tal iniciativa, reforça a necessidade em observar os novos modelos de jornalismo e os diferentes formatos de produção e propagação de notícias por meio deste que é o gigante dos mecanismos de busca e responsável pela maior parte dos resultados das pesquisas feitas pelos usuários de internet.

A cada ano mais presente no impacto da economia mundial, o Google tem sido alvo de investigações de entidades judiciais dos Estados Unidos e da União Européia que apontam práticas abusivas, por meio da fixação de anúncios patrocinados por grandes empresas, o que leva a uma concorrência desleal aos pequenos empresários.

De acordo com a atual Comissária Europeia da livre concorrência, Margrethe Vestager: “É muito difícil achar rivais, pois, na maioria das vezes, você só vai encontrá-los na quarta página em seus resultados de pesquisa”.

Nem sempre a melhor apuração de um veículo de pequeno porte será considerada importante ao grande mecanismo de busca, devido ao seu baixo orçamento publicitário. É o que sugere o repórter investigativo de “O Globo”, Guilherme Amado: “Na contramão, a grande mídia, arrogante e sem saber lidar com a competição, quase sempre ignora o que os veículos pequenos fazem.” Membro em Standford pela John S. Knight Journalism, Guilherme também representou a imprensa do Brasil no Collaborative Journalism Summit, realizado no mês de maio deste ano em New Jersey, juntamente com o JornalismoColaborativo.com que pela segunda vez consecutiva esteve presente no congresso em parceria com o Center for Cooperative Media.

Isso reforça o quanto é fator determinante para a sociedade compreender a importância de sua participação nos âmbitos políticos, sociais e econômicos. Aguçar seu olhar crítico para não ficar a mercê do monopólio da informação das grandes mídias ou até mesmo se fazer valer do uso de aplicativos que representam uma alternativa à participação política é dever de todos.

Se você acredita que suas ações tem o poder de transformar e melhorar o regime democrático, então comece mobilizando vizinhos,  familares, amigos e outros colegas a serem mais participativos durante os eventos parlamentares, interferindo desde o poder legislativo ao executivo. 

Está mais do que em tempo de aprendermos a cobrar para construir uma sociedade mais livre, justa e solidária. O primeiro passo, é não ficar só assistindo. Mostre sua cara, escreva e dê voz  à democracia. Participe!

Nesse contexto, a rede de comunicação do Jornalismo Colaborativo, sediada em São José dos Campos, se apreenta como um veículo de jornalismo digital independente por meio de reportagens, investigações políticas, científicas e locais, pautadas na veracidade e na publicação de notícias relevantes.

Desde 2013, o JC busca trabalhar como uma ferramenta de combate à corrupção e o monopólio da informação.

 


CC BY 4.0 Jornalismo e Cidadania nas Eleições 2018 by Dayse Carrara is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Sobre o Autor

Dayse Carrara

Estudante de Comunicação Social pela Uninter e repórter estagiária da rede do Jornalismo Colaborativo.

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